sexta-feira, 31 de maio de 2013
Recado para Copenhaga
Recado para Copenhaga a propósito do nosso mundo ambiental
“Eis a péssima notícia: estamos perdidos, irremediavelmente perdidos.
Estamos perdidos, mas temos um tecto, uma casa, uma pátria. É a nossa
pátria, o lugar de nossa comunidade de destino de vida e morte. O
evangelho dos homens perdidos diz-nos que devemos ser irmãos, não
porque seremos salvos, mas porque estamos perdidos”
Edgar Morin, in "Terra-pátria",1995
“Eis a péssima notícia: estamos perdidos, irremediavelmente perdidos.
Estamos perdidos, mas temos um tecto, uma casa, uma pátria. É a nossa
pátria, o lugar de nossa comunidade de destino de vida e morte. O
evangelho dos homens perdidos diz-nos que devemos ser irmãos, não
porque seremos salvos, mas porque estamos perdidos”
Edgar Morin, in "Terra-pátria",1995
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Mestre
Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.
Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,
Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza…
À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.
O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.
Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.
Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.
Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.
Ricardo Reis
12 de Junho de 1914
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.
Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,
Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza…
À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.
O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.
Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.
Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.
Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.
Ricardo Reis
12 de Junho de 1914
quarta-feira, 22 de maio de 2013
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Hélia Correia
Vista de determinado ponto de vista, toda a obra de arte tem uma dimensão política. 'A Terceira Miséria' é um poema só, dividido em 33 fragmentos, que se debruça sobre a Grécia -e não só- de forma a dar-nos uma dimensão de que mundo é este em que actualmente vivemos. Se se torna quase chavão dizer que o desconhecimento do passado é uma condenação a repeti-lo, este poema tem a eficácia de mostrar-nos que esse chavão não deixa de traduzir uma realidade. No centro do poema fulgura a plenitude clássica da Grécia no seu apogeu cultural. Esse centro fornece-nos as linhas mestras para um desenho da actualidade não necessariamente grega, mas europeia
Sofremos, sim, de idêntica indigência
Da ruína da Grécia.
(p.13)
e quem sofre somos
Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizam
(p.13)
o que é ainda uma admirável e natural descrição de nós- nós os europeus em crise, sujeitos ao monopólio económico, à corrupção e à perda da independência, nós, sobretudo, que nos perdemos do passado enquanto herança cultural e, daí, política.
A ideia de que é, no fundo, a esta questão que 'A Terceira Miséria' se refere fica clara logo no primeiro fragmento, onde o eco de Hölderlin origina uma espécie de constatação a um tempo angustiada e irónica
Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
(p.7)
precisamente esta será a interrogação que origina o poema, uma vez que todo ele é, mais directamente por vezes, outras menos, uma resposta a estes primeiros dois versos
Às suas mãos
Atenas viu os quartos, as cozinhas,
A roupa de seus filhos devassados,
As passadas de gelo atravessando,
Cortando os corredores e os corações.
Outra vez conquistada, olhando ainda,
No pequeno intervalo da servidão,
Pela janela, para o fim da rua,
Onde nada se avista. Pois, tal como
Os sentidos do corpo se compensam,
Tomando, como tomam os guerreiros,
O lugar do caído, assim também
Os sentidos da alma se engrandecem
E alcançam o que tanto querem ver:
(p.27)
lemos no fragmento 21. Momentos como este não faltam ao longo de todo o poema, e são bastante importantes, no sentido em que nos mostram que este poema não intenta contrapor um tempo de indigência com um tempo de prosperidade. Antes 'A Terceira Miséria' contrapõe dois tempos de indigência em que a oposição existe na forma como essa indigência de resolve. Essa resolução é aquela que encontramos na explicação das três misérias:
Sim, foi essa
A primeira miséria, a deserção
Dos deuses. A segunda, a sua morte,
Já na morte de Pã anunciada
Pelo lamento dos bosques, o clamor
Lutuoso das ilhas do Egeu.
(p.24)
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
(p.29)
Contrapor estes dois fragmentos é encontrar uma das mais interessantes características do poema. Se repararmos bem, à superfície, este contraponto cruza, além de vários tempos, vários universos, sendo que as primeiras misérias se desenrolam no plano da mitologia, ao passo que a terceira miséria pertence a um plano bem concreto e realista. No entanto, um outro entendimento desta separação de universos pode dar-nos outra possível pista para a leitura de 'A Terceira Miséria': a mitologia era uma parte crucial da cultura grega, e ela representa uma forma de viver, uma forma de olhar o real, forma essa que, no tempo desta terceira miséria, já se perdeu. Se para os gregos os deuses eram uma forma de olhar e resolver a realidade, este tempo com que estamos a lidar, é um tempo em que os deuses, naquele sentido, se perderam, o que pode ser uma maneira de reduzir[mos] a beleza a pequenas tarefas, como se lia no fragmento 7.
No final do livro, encontramos uma Dívida confessada, onde Hélia assume os ecos que neste poema se fazem sentir, de Maria Gabriela Llansol, Hölderlin, Nietzsche, Ésquilo, Glenway Wescott, Plutarco, Tucídides e de Lord Byron. Este último, Byron, é citado pelo seu último poema, On This Day I Complete My Thirty-Sixth Year e onde o chamamento da Grécia que lhe marcou a vida e a escrita se faz sentir. A sua presença em 'A Terceira Miséria' é, de certa forma, das mais significativas. Este poema é escrito no século XIX, já longe da Antiguidade Clássica, quando a Grécia era já um país entre vários da Europa. No entanto, é Byron, poeta, quem diz que a Grécia está desperta. Esse mesmo sentimento de que, sob a Grécia de hoje, que se encontra numa situação semelhante ou pior que a de Portugal e, já agora, do resto da Europa, existe ainda uma possibilidade de recuperar a intensa cultura
«Que o meu corpo não seja», escreveu ele,
«Levado, entregue a túmulo inglês.»
Mas foi. Que pode um voto, que podia
Um último poema, dito a custo,
Por quem se ergueu do leito nessa casa
Que o fogo em breve ia destruir,
O que pode o desejo contra a ordem?
Que segurou nos braços essa Grécia
A quem ele deu tudo, quando as urnas,
A do corpo e a das vísceras embarcaram?
(p.35)
lemos ainda no encalço de Byron. A importância da presença deste poeta no poema de Hélia Correia é, como acima disse, bastante, a meu ver, e por isto: primeiro, porque Byron, como se disse, escreve o seu último poema já depois da Antiguidade Clássica e segundo, e bastante mais importante, porque a referência a Byron, que surge a partir do fragmento 27 (Sendo que o poema são 33 fragmentos.), quase no final,. como que encaminhando-nos discretamente para a resposta à pergunta principal deste 'A Terceira Miséria', da necessidade de poetas em tempos de indigência
Para onde olharemos? Para quem?
Certo é que Atenas se mantém oculta
E de algum modo intacta, por debaixo
Do alcatrão, do ferro retorcido.
(p.36)
E esta permanência, que Byron viu no seu último poema, e que Hélia explora neste seu, é talvez a única e grande utilidade dos poetas em tempo de indigência: a de ver e ressuscitar essa Atenas simbólica que existe sobre a actual, é a de recuperar toda uma carga cultural que está perto de se perder completamente, de não deixar esquecer aquele que foi noutros tempos o grande caminho para vencer a adversidade e o caos. A terceira miséria, onde culminam a primeira e a segunda, é, no fundo, uma miséria a que só os poetas conseguem apontar uma saída, como se a sua função fosse não deixar o tempo perder-se do tempo.
Mas mais do que esta mensagem que fica patente em 'A Terceira Miséria', interessa ler o poema com atenção e apreciá-lo em toda a sua intensidade, que excede a própria mensagem, e nos deixa um testemunho potente e fulgurante que, mesmo que se situe no tempo actual, é um testemunho sobre toda uma cronologia que começa na Antiguidade Clássica e termina hoje, escrito com uma força tão acutilante que nos chega a dar a impressão que Hélia Correia pudesse ter atravessado efectivamente todo este tempo.
É difícil falar deste livro no contexto da poesia de Hélia Correia, uma vez que dimensão publicada desta é reduzida, mas 'A Terceira Miséria' parece de alguma forma retormar 'Apodera-te de Mim' que, como acima se disse, procurava já a herança grega. A linguagem de Hélia é aqui mais lapidar e directa, sem por isso perder a sua subtileza, a sua tensão e a sua incandescência que oscila entre a beleza extrema e um realismo quase grotesco, que no prazer exacerbado dos sentidos faz fulgurar o miserabilismo que também passa por este poema. Além disso, talvez mais do que os outros livros, este livro marca um diálogo aberto e rico com várias figuras do pensamento e da literatura. Esse diálogo acaba por intensificar a relação que este poema cria com o tempo, no sentido em que, recuperando o pensamento dessas figuras, Hélia recupera também aquilo que, no tempo delas, era comum a este tempo, mostrando-nos que, no fundo, não se trata dessas figuras estarem à frente do seu tempo, mas sim do facto desse tempo ser, em muito, igual ao nosso, senão o mesmo que o nosso.
Sofremos, sim, de idêntica indigência
Da ruína da Grécia.
(p.13)
e quem sofre somos
Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizam
(p.13)
o que é ainda uma admirável e natural descrição de nós- nós os europeus em crise, sujeitos ao monopólio económico, à corrupção e à perda da independência, nós, sobretudo, que nos perdemos do passado enquanto herança cultural e, daí, política.
A ideia de que é, no fundo, a esta questão que 'A Terceira Miséria' se refere fica clara logo no primeiro fragmento, onde o eco de Hölderlin origina uma espécie de constatação a um tempo angustiada e irónica
Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
(p.7)
precisamente esta será a interrogação que origina o poema, uma vez que todo ele é, mais directamente por vezes, outras menos, uma resposta a estes primeiros dois versos
Às suas mãos
Atenas viu os quartos, as cozinhas,
A roupa de seus filhos devassados,
As passadas de gelo atravessando,
Cortando os corredores e os corações.
Outra vez conquistada, olhando ainda,
No pequeno intervalo da servidão,
Pela janela, para o fim da rua,
Onde nada se avista. Pois, tal como
Os sentidos do corpo se compensam,
Tomando, como tomam os guerreiros,
O lugar do caído, assim também
Os sentidos da alma se engrandecem
E alcançam o que tanto querem ver:
(p.27)
lemos no fragmento 21. Momentos como este não faltam ao longo de todo o poema, e são bastante importantes, no sentido em que nos mostram que este poema não intenta contrapor um tempo de indigência com um tempo de prosperidade. Antes 'A Terceira Miséria' contrapõe dois tempos de indigência em que a oposição existe na forma como essa indigência de resolve. Essa resolução é aquela que encontramos na explicação das três misérias:
Sim, foi essa
A primeira miséria, a deserção
Dos deuses. A segunda, a sua morte,
Já na morte de Pã anunciada
Pelo lamento dos bosques, o clamor
Lutuoso das ilhas do Egeu.
(p.24)
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
(p.29)
Contrapor estes dois fragmentos é encontrar uma das mais interessantes características do poema. Se repararmos bem, à superfície, este contraponto cruza, além de vários tempos, vários universos, sendo que as primeiras misérias se desenrolam no plano da mitologia, ao passo que a terceira miséria pertence a um plano bem concreto e realista. No entanto, um outro entendimento desta separação de universos pode dar-nos outra possível pista para a leitura de 'A Terceira Miséria': a mitologia era uma parte crucial da cultura grega, e ela representa uma forma de viver, uma forma de olhar o real, forma essa que, no tempo desta terceira miséria, já se perdeu. Se para os gregos os deuses eram uma forma de olhar e resolver a realidade, este tempo com que estamos a lidar, é um tempo em que os deuses, naquele sentido, se perderam, o que pode ser uma maneira de reduzir[mos] a beleza a pequenas tarefas, como se lia no fragmento 7.
No final do livro, encontramos uma Dívida confessada, onde Hélia assume os ecos que neste poema se fazem sentir, de Maria Gabriela Llansol, Hölderlin, Nietzsche, Ésquilo, Glenway Wescott, Plutarco, Tucídides e de Lord Byron. Este último, Byron, é citado pelo seu último poema, On This Day I Complete My Thirty-Sixth Year e onde o chamamento da Grécia que lhe marcou a vida e a escrita se faz sentir. A sua presença em 'A Terceira Miséria' é, de certa forma, das mais significativas. Este poema é escrito no século XIX, já longe da Antiguidade Clássica, quando a Grécia era já um país entre vários da Europa. No entanto, é Byron, poeta, quem diz que a Grécia está desperta. Esse mesmo sentimento de que, sob a Grécia de hoje, que se encontra numa situação semelhante ou pior que a de Portugal e, já agora, do resto da Europa, existe ainda uma possibilidade de recuperar a intensa cultura
«Que o meu corpo não seja», escreveu ele,
«Levado, entregue a túmulo inglês.»
Mas foi. Que pode um voto, que podia
Um último poema, dito a custo,
Por quem se ergueu do leito nessa casa
Que o fogo em breve ia destruir,
O que pode o desejo contra a ordem?
Que segurou nos braços essa Grécia
A quem ele deu tudo, quando as urnas,
A do corpo e a das vísceras embarcaram?
(p.35)
lemos ainda no encalço de Byron. A importância da presença deste poeta no poema de Hélia Correia é, como acima disse, bastante, a meu ver, e por isto: primeiro, porque Byron, como se disse, escreve o seu último poema já depois da Antiguidade Clássica e segundo, e bastante mais importante, porque a referência a Byron, que surge a partir do fragmento 27 (Sendo que o poema são 33 fragmentos.), quase no final,. como que encaminhando-nos discretamente para a resposta à pergunta principal deste 'A Terceira Miséria', da necessidade de poetas em tempos de indigência
Para onde olharemos? Para quem?
Certo é que Atenas se mantém oculta
E de algum modo intacta, por debaixo
Do alcatrão, do ferro retorcido.
(p.36)
E esta permanência, que Byron viu no seu último poema, e que Hélia explora neste seu, é talvez a única e grande utilidade dos poetas em tempo de indigência: a de ver e ressuscitar essa Atenas simbólica que existe sobre a actual, é a de recuperar toda uma carga cultural que está perto de se perder completamente, de não deixar esquecer aquele que foi noutros tempos o grande caminho para vencer a adversidade e o caos. A terceira miséria, onde culminam a primeira e a segunda, é, no fundo, uma miséria a que só os poetas conseguem apontar uma saída, como se a sua função fosse não deixar o tempo perder-se do tempo.
Mas mais do que esta mensagem que fica patente em 'A Terceira Miséria', interessa ler o poema com atenção e apreciá-lo em toda a sua intensidade, que excede a própria mensagem, e nos deixa um testemunho potente e fulgurante que, mesmo que se situe no tempo actual, é um testemunho sobre toda uma cronologia que começa na Antiguidade Clássica e termina hoje, escrito com uma força tão acutilante que nos chega a dar a impressão que Hélia Correia pudesse ter atravessado efectivamente todo este tempo.
É difícil falar deste livro no contexto da poesia de Hélia Correia, uma vez que dimensão publicada desta é reduzida, mas 'A Terceira Miséria' parece de alguma forma retormar 'Apodera-te de Mim' que, como acima se disse, procurava já a herança grega. A linguagem de Hélia é aqui mais lapidar e directa, sem por isso perder a sua subtileza, a sua tensão e a sua incandescência que oscila entre a beleza extrema e um realismo quase grotesco, que no prazer exacerbado dos sentidos faz fulgurar o miserabilismo que também passa por este poema. Além disso, talvez mais do que os outros livros, este livro marca um diálogo aberto e rico com várias figuras do pensamento e da literatura. Esse diálogo acaba por intensificar a relação que este poema cria com o tempo, no sentido em que, recuperando o pensamento dessas figuras, Hélia recupera também aquilo que, no tempo delas, era comum a este tempo, mostrando-nos que, no fundo, não se trata dessas figuras estarem à frente do seu tempo, mas sim do facto desse tempo ser, em muito, igual ao nosso, senão o mesmo que o nosso.
Para quê
Para quê, perguntou ele, para que servem/
Os poetas em tempo de indigência?/
Dois séculos corridos sobre a hora/
Em que foi escrita esta meia linha,/
Não a hora do anjo, não: a hora/
Em que o luar, no monte emudecido,/
Fulgurou tão desesperadamente/
Que uma antiga substância, essa beleza/
Que podia tocar-se num recesso/
Da poeirenta estrada, no terror/
Das cadelas nocturnas, na contínua/
Perturbação, morada da alegria;//
in A Terceira Miséria
Os poetas em tempo de indigência?/
Dois séculos corridos sobre a hora/
Em que foi escrita esta meia linha,/
Não a hora do anjo, não: a hora/
Em que o luar, no monte emudecido,/
Fulgurou tão desesperadamente/
Que uma antiga substância, essa beleza/
Que podia tocar-se num recesso/
Da poeirenta estrada, no terror/
Das cadelas nocturnas, na contínua/
Perturbação, morada da alegria;//
in A Terceira Miséria
Estes natais sinistros
Estes natais sinistros
por Gabriel García Márquez
Já ninguém se recorda de Deus no Natal. Há tanto estrondo de corneta e fogos de artifício, tantas guirlandas de focos de cores, tantos perus inocentes degolados e tantas angústias de dinheiro que ultrapassam nossos recursos reais que podemos nos perguntar se a alguém resta um instante para perceber que semelhante alvoroço é para celebrar o aniversário de uma criança que nasceu há 2000 anos numa estrebaria de miséria, a pouca distância de onde havia nascido, uns mil anos antes, o rei David. Novecentos e cinquenta e quatro milhões de cristãos crêem que essa criança era Deus encarnado, mas muitos celebram-no como se na realidade não o acreditassem. Celembram-no além disso muitos milhões que nunca o acreditaram, mas agrada-lhes a pândega, e muitos outros estariam dispostos a virar o mundo do avesso para que ninguém continuasse a acreditar. Seria interessante averiguar quantos deles crêem também, no fundo da sua alma, que o Natal de agora é uma festa abominável, e não se atrevem a dizê-lo por um preconceito que já não é religioso e sim social.
O mais grave de tudo é o desastre cultural que estes Natais pervertidos estão a causar na América Latina. Antes, quando só tínhamos costumes herdados da Espanha, os presépios domésticos eram prodígios de imaginação familiar. A criança Deus era maior que o boi, as casinhas encarrapitadas nas colinas eram maiores que a virgem, e ninguém dava atenção a anacronismos: a paisagem de Belém era completada com um comboio de corda, com um pato de pelúcia maior que um leão que nadava no espelho da sala, ou com um agente de trânsito que dirigia um rebanho de cordeiros numa esquina de Jerusalém. Acima de tudo punha-se uma estrela de papel dourado com uma lâmpada no centro, e um raio de seda amarela que deveria indicar aos Reis Magos o caminho da salvação. O resultado era antes feio, mas parecia connosco, e naturalmente era melhor do que tantos quadros primitivos mal copiados do aduaneiro Rousseau.
A mistificação começou com o costume de que os brinquedos não fossem trazidos pelos Reis Magos – como sucede em Espanha com toda a razão – e sim pela criança Deus. Nós, crianças, deitávamo-nos mais cedo para que as prendas chegassem logo, e éramos felizes ouvindo as mentiras poéticas dos adultos. Entretanto, eu não tinha mais de cinco anos quando alguém na minha casa decidiu que já era tempo de revelar-me a verdade. Foi uma desilusão não só porque eu acreditava deveras que era a criança Deus que trazia os brinquedos, como também porque teria querido continuar a acreditar. Além disso, por pura lógica de adulto, pensei então que os outros mistérios católicos também eram inventados pelos pais para entreter as crianças, e fiquei-me no limbo. Naquele dia – como diziam os mestres jesuítas na escola primária – perdi a inocência, pois descobri que tão pouco as crianças eram trazidas de Paris pelas cegonhas, o que é algo que ainda gostaria de continuar a acreditar para pensar mais no amor e menos na pílula.
Tudo isto mudou nos últimos trinta anos, mediante uma operação comercial de proporções mundiais que é ao mesmo tempo uma devastadora agressão cultural. A criança Deus foi destronada pelo Santa Claus dos gringos e dos ingleses, que é o mesmo Papá Noel dos franceses, aos quais todos conhecemos demasiado. Chegou-nos com tudo: o trenó puxado por um alce, e o abeto carregado de brinquedos sob uma fantástica tempestade de neve. Na realidade, este usurpador com nariz de cervejeiro não é outro senão o bom São Nicolau, um santo ao qual quero muito é o do meu avô coronel, mas que nada tem a ver com o Natal, e muito menos com Noite Boa tropical da América Latina. Segundo a lenda nórdica, São Nicolau reconstruiu e reviveu vários escolares que um urso havia despedaçado na neve, e por isso proclamaram-no patrono das crianças. Mas a sua festa celebra-se em 6 de Dezembro e não a 25. A lenda tornou-se institucional nas províncias germânicas do norte em final do século XVIII, junto à árvore dos brinquedos, e há pouco mais de cem anos passou à Grã-Bretanha e à França. A seguir passou aos Estados Unidos, e estes enviaram-na para a América Latina, com toda uma cultura de contrabando: a neve artificial, as velas de cores, o peru recheado e estes quinze dias de consumismo frenético ao qual poucos de nós se atrevem a escapar. Contudo, talvez o mais sinistro destes Natais de consumo seja a estética miserável que trouxeram consigo: esses cartões postais indigentes, esses cordões de luzinhas de cores, esses sininhos de vidro, essas coroas de visco penduradas no umbral, essas canções de atrasados mentais que são os cânticos traduzidos do inglês; e tantas outras estupidezes gloriosas para as quais nem sequer valia a pena haver inventado a electricidade.
Tudo isso, em torno da festa mais espantosa do ano. Uma noite infernal em que as crianças não podem dormir com a casa cheia de bêbados que se enganam de porta à procura de onde desaguar, ou a perseguir a esposa de outro que por acaso teve a boa sorte de cair adormecido na sala. Mentira: não é uma noite de paz e amor, e sim todo o contrário. É a ocasião solene da gente que não se quer. A oportunidade providencial de cumprir os compromissos adiados por indesejáveis: o convite ao pobre cego que ninguém convida, à prima Isabel que ficou viúva há quinze anos, à avó paralítica que ninguém se atreve a mostrar. É a alegria por decreto, o carinho por lástima, o momento de presentear porque nos presenteiam, e de chorar em público sem dar explicações. É a hora feliz de os convidados beberem tudo o que sobrou do Natal anterior: o creme de menta, o licor de chocolate, o vinho de banana. Não é raro, como sucede amiúde, que a festa termine a tiros. Nem é raro tão pouco que as crianças – ao verem tantas coisas atrozes – acabem por crer realmente que o menino Jesus não nasceu em Belém e sim nos Estados Unidos.
por Gabriel García Márquez
Já ninguém se recorda de Deus no Natal. Há tanto estrondo de corneta e fogos de artifício, tantas guirlandas de focos de cores, tantos perus inocentes degolados e tantas angústias de dinheiro que ultrapassam nossos recursos reais que podemos nos perguntar se a alguém resta um instante para perceber que semelhante alvoroço é para celebrar o aniversário de uma criança que nasceu há 2000 anos numa estrebaria de miséria, a pouca distância de onde havia nascido, uns mil anos antes, o rei David. Novecentos e cinquenta e quatro milhões de cristãos crêem que essa criança era Deus encarnado, mas muitos celebram-no como se na realidade não o acreditassem. Celembram-no além disso muitos milhões que nunca o acreditaram, mas agrada-lhes a pândega, e muitos outros estariam dispostos a virar o mundo do avesso para que ninguém continuasse a acreditar. Seria interessante averiguar quantos deles crêem também, no fundo da sua alma, que o Natal de agora é uma festa abominável, e não se atrevem a dizê-lo por um preconceito que já não é religioso e sim social.
O mais grave de tudo é o desastre cultural que estes Natais pervertidos estão a causar na América Latina. Antes, quando só tínhamos costumes herdados da Espanha, os presépios domésticos eram prodígios de imaginação familiar. A criança Deus era maior que o boi, as casinhas encarrapitadas nas colinas eram maiores que a virgem, e ninguém dava atenção a anacronismos: a paisagem de Belém era completada com um comboio de corda, com um pato de pelúcia maior que um leão que nadava no espelho da sala, ou com um agente de trânsito que dirigia um rebanho de cordeiros numa esquina de Jerusalém. Acima de tudo punha-se uma estrela de papel dourado com uma lâmpada no centro, e um raio de seda amarela que deveria indicar aos Reis Magos o caminho da salvação. O resultado era antes feio, mas parecia connosco, e naturalmente era melhor do que tantos quadros primitivos mal copiados do aduaneiro Rousseau.
A mistificação começou com o costume de que os brinquedos não fossem trazidos pelos Reis Magos – como sucede em Espanha com toda a razão – e sim pela criança Deus. Nós, crianças, deitávamo-nos mais cedo para que as prendas chegassem logo, e éramos felizes ouvindo as mentiras poéticas dos adultos. Entretanto, eu não tinha mais de cinco anos quando alguém na minha casa decidiu que já era tempo de revelar-me a verdade. Foi uma desilusão não só porque eu acreditava deveras que era a criança Deus que trazia os brinquedos, como também porque teria querido continuar a acreditar. Além disso, por pura lógica de adulto, pensei então que os outros mistérios católicos também eram inventados pelos pais para entreter as crianças, e fiquei-me no limbo. Naquele dia – como diziam os mestres jesuítas na escola primária – perdi a inocência, pois descobri que tão pouco as crianças eram trazidas de Paris pelas cegonhas, o que é algo que ainda gostaria de continuar a acreditar para pensar mais no amor e menos na pílula.
Tudo isto mudou nos últimos trinta anos, mediante uma operação comercial de proporções mundiais que é ao mesmo tempo uma devastadora agressão cultural. A criança Deus foi destronada pelo Santa Claus dos gringos e dos ingleses, que é o mesmo Papá Noel dos franceses, aos quais todos conhecemos demasiado. Chegou-nos com tudo: o trenó puxado por um alce, e o abeto carregado de brinquedos sob uma fantástica tempestade de neve. Na realidade, este usurpador com nariz de cervejeiro não é outro senão o bom São Nicolau, um santo ao qual quero muito é o do meu avô coronel, mas que nada tem a ver com o Natal, e muito menos com Noite Boa tropical da América Latina. Segundo a lenda nórdica, São Nicolau reconstruiu e reviveu vários escolares que um urso havia despedaçado na neve, e por isso proclamaram-no patrono das crianças. Mas a sua festa celebra-se em 6 de Dezembro e não a 25. A lenda tornou-se institucional nas províncias germânicas do norte em final do século XVIII, junto à árvore dos brinquedos, e há pouco mais de cem anos passou à Grã-Bretanha e à França. A seguir passou aos Estados Unidos, e estes enviaram-na para a América Latina, com toda uma cultura de contrabando: a neve artificial, as velas de cores, o peru recheado e estes quinze dias de consumismo frenético ao qual poucos de nós se atrevem a escapar. Contudo, talvez o mais sinistro destes Natais de consumo seja a estética miserável que trouxeram consigo: esses cartões postais indigentes, esses cordões de luzinhas de cores, esses sininhos de vidro, essas coroas de visco penduradas no umbral, essas canções de atrasados mentais que são os cânticos traduzidos do inglês; e tantas outras estupidezes gloriosas para as quais nem sequer valia a pena haver inventado a electricidade.
Tudo isso, em torno da festa mais espantosa do ano. Uma noite infernal em que as crianças não podem dormir com a casa cheia de bêbados que se enganam de porta à procura de onde desaguar, ou a perseguir a esposa de outro que por acaso teve a boa sorte de cair adormecido na sala. Mentira: não é uma noite de paz e amor, e sim todo o contrário. É a ocasião solene da gente que não se quer. A oportunidade providencial de cumprir os compromissos adiados por indesejáveis: o convite ao pobre cego que ninguém convida, à prima Isabel que ficou viúva há quinze anos, à avó paralítica que ninguém se atreve a mostrar. É a alegria por decreto, o carinho por lástima, o momento de presentear porque nos presenteiam, e de chorar em público sem dar explicações. É a hora feliz de os convidados beberem tudo o que sobrou do Natal anterior: o creme de menta, o licor de chocolate, o vinho de banana. Não é raro, como sucede amiúde, que a festa termine a tiros. Nem é raro tão pouco que as crianças – ao verem tantas coisas atrozes – acabem por crer realmente que o menino Jesus não nasceu em Belém e sim nos Estados Unidos.
Estamos de novo cercados pelo medo
Quase seiscentos mil portugueses estão desempregados, informa o Governo. Os sindicatos dizem que são muitos mais. Tenham uns e outros as razões dos números, a verdade é que estes são extremamente elevados. Já passei por angústias semelhantes. Duas ou três vezes fui posto na rua, simplesmente por não estar de acordo e manifestar, subversivamente, o meu profundo desagrado. Não fiz mais do que devia fazer. Falo no facto para dizer aos meus Dilectos que sofro com dor de peito quando, nas televisões, e isto é diário, assisto a esse desfile de homens e mulheres despedidos de fábricas e empresas que todos os dias encerram.
Claro que os encerramentos se devem a "empresários" iletrados, a "patrões" irresponsáveis, a fraudulentas manigâncias. O "Jornal de Negócios" inclui, amiúde, nas suas páginas, o rol da infâmia. Pode viver-se assim num País cujos governantes não sabem acautelar as mais rudimentares normas de cidadania? Há anos. Nos tempos do fascismo, um grande jornalista português, Mário Ventura, já infelizmente desaparecido, fez o levantamento das nossas desgraças, assinando uma longa reportagem, "Viver e Morrer em Portugal", que, na época, causou grande sobressalto emocional. Em suma: Mário Ventura dizia-nos que gerações inteiras fugiam para o estrangeiro, por impossibilidade de existirem, aqui, com um mínimo de dignidade. Atribuíamos ao regime grande fatia dessa tragédia. E era verdade. Agora, porém, a quem assacar as culpas?
Vamos escrevendo sobre o assunto, alguns jornais (não todos, não todos) publicam reportagens dessa miserável condição de ser, mas parece que ninguém ouve, que ninguém está interessado em resolver o problema, que ninguém demonstra o mínimo interesse. Uma questão a esquecer. Porém, fazendo ilações aritméticas simples, verificamos que, pelo menos, há um milhão e meio de portugueses que sofrem, directa e indirectamente, este infortúnio.
Banalizámos a dor dos outros, ignorando que, mais tarde ou mais cedo, a dor tocará no batente da nossa porta.
Saúde-se o "Público" por ter alargado a primeira página (não se diz "capa", "capa" é de revista; diz-se "primeira página", a montra do jornal) a este magno acontecimento e, por uma vez, ter colocado em outro degrau as escutas, as corrupções, a cobiça e a cupidez daqueles que foram educados para isso.
Não é que estes problemas sejam desimportantes. Não. Mas eles são decorrentes uns dos outros, e há uma parcela deles que explica e determina o desemprego, o fechamento de fábricas e empresas. A impunidade com que sobrevivem parasitas, corruptos e corruptores, "patrões" sem qualificação mas qualificados para a prática das mais vis malandrices - chega a ser inquietante. E ninguém vai parar à cadeia.
Escrevi, em outro jornal, que a nossa sociedade está a desmoronar-se e ninguém lhe acode. Os laços sociais estão a desaparecer, substituídos por um sistema de valores em que impera a vacuidade, o poder da "competitividade" como força motriz - e não é. Há tempo para tudo, diz o Eclesiastes. Mas a verdade é que os "tempos" foram pulverizados pela urgência de não se sabe bem o quê. A frase mais comum que ouvimos é: "Não tenho tempo para"; para quê? A correria mina as relações de civismo e de civilidade; está a roer os alicerces da família; a família deixou de ser o núcleo das nossas próprias defesas; e vamos perdendo o rasto dos nossos filhos, dos nossos amigos, dos nossos camaradas, dos nossos companheiros. A azáfama nos locais de trabalho é o sinal das nossas fragilidades e dos nossos medos. Estamos com medo de tudo, inclusive de confiar em quem, ainda não há muito, seríamos capazes de confidenciar o impensável.
O medo instalou-se na sociedade portuguesa. Era atávico: a Inquisição tratou de nos emascular e o salazarismo continuou a tarefa. Mas, enfim, veio Abril e nós a pensar, como diz o outro, que mandávamos "nisto." A festa durou pouco. Estamos, de novo, cercados; e, desta vez, o cerco é "democrático." Temos medo de constituir família, medo de ter filhos, medo de ir para o emprego e o emprego já lá não estar. Isto não tem nada a ver com essa patetice da "asfixia democrática", da dr.ª Ferreira Leite, onzenada pelo Pacheco Pereira. Ou, se tem, nasceu com os dez anos de cavaquismo e com o culto criptofascista da juventude pela juventude, que conduziu ao saneamento dos melhores quadros nas empresas e à remoção de grandes jornalistas substituídos por gente "de confiança."
É cada vez mais necessário analisar as razões fundas do estado a que Portugal chegou. E não há inocentes. O rancor e o ressentimento não são, apenas, produtos das injustiças sociais. São-no, também, resultados do medo.
Artigo de opinião de Baptista-Bastos, publicado no Jornal de Negócios, em 20 de Novembro de 2009
Claro que os encerramentos se devem a "empresários" iletrados, a "patrões" irresponsáveis, a fraudulentas manigâncias. O "Jornal de Negócios" inclui, amiúde, nas suas páginas, o rol da infâmia. Pode viver-se assim num País cujos governantes não sabem acautelar as mais rudimentares normas de cidadania? Há anos. Nos tempos do fascismo, um grande jornalista português, Mário Ventura, já infelizmente desaparecido, fez o levantamento das nossas desgraças, assinando uma longa reportagem, "Viver e Morrer em Portugal", que, na época, causou grande sobressalto emocional. Em suma: Mário Ventura dizia-nos que gerações inteiras fugiam para o estrangeiro, por impossibilidade de existirem, aqui, com um mínimo de dignidade. Atribuíamos ao regime grande fatia dessa tragédia. E era verdade. Agora, porém, a quem assacar as culpas?
Vamos escrevendo sobre o assunto, alguns jornais (não todos, não todos) publicam reportagens dessa miserável condição de ser, mas parece que ninguém ouve, que ninguém está interessado em resolver o problema, que ninguém demonstra o mínimo interesse. Uma questão a esquecer. Porém, fazendo ilações aritméticas simples, verificamos que, pelo menos, há um milhão e meio de portugueses que sofrem, directa e indirectamente, este infortúnio.
Banalizámos a dor dos outros, ignorando que, mais tarde ou mais cedo, a dor tocará no batente da nossa porta.
Saúde-se o "Público" por ter alargado a primeira página (não se diz "capa", "capa" é de revista; diz-se "primeira página", a montra do jornal) a este magno acontecimento e, por uma vez, ter colocado em outro degrau as escutas, as corrupções, a cobiça e a cupidez daqueles que foram educados para isso.
Não é que estes problemas sejam desimportantes. Não. Mas eles são decorrentes uns dos outros, e há uma parcela deles que explica e determina o desemprego, o fechamento de fábricas e empresas. A impunidade com que sobrevivem parasitas, corruptos e corruptores, "patrões" sem qualificação mas qualificados para a prática das mais vis malandrices - chega a ser inquietante. E ninguém vai parar à cadeia.
Escrevi, em outro jornal, que a nossa sociedade está a desmoronar-se e ninguém lhe acode. Os laços sociais estão a desaparecer, substituídos por um sistema de valores em que impera a vacuidade, o poder da "competitividade" como força motriz - e não é. Há tempo para tudo, diz o Eclesiastes. Mas a verdade é que os "tempos" foram pulverizados pela urgência de não se sabe bem o quê. A frase mais comum que ouvimos é: "Não tenho tempo para"; para quê? A correria mina as relações de civismo e de civilidade; está a roer os alicerces da família; a família deixou de ser o núcleo das nossas próprias defesas; e vamos perdendo o rasto dos nossos filhos, dos nossos amigos, dos nossos camaradas, dos nossos companheiros. A azáfama nos locais de trabalho é o sinal das nossas fragilidades e dos nossos medos. Estamos com medo de tudo, inclusive de confiar em quem, ainda não há muito, seríamos capazes de confidenciar o impensável.
O medo instalou-se na sociedade portuguesa. Era atávico: a Inquisição tratou de nos emascular e o salazarismo continuou a tarefa. Mas, enfim, veio Abril e nós a pensar, como diz o outro, que mandávamos "nisto." A festa durou pouco. Estamos, de novo, cercados; e, desta vez, o cerco é "democrático." Temos medo de constituir família, medo de ter filhos, medo de ir para o emprego e o emprego já lá não estar. Isto não tem nada a ver com essa patetice da "asfixia democrática", da dr.ª Ferreira Leite, onzenada pelo Pacheco Pereira. Ou, se tem, nasceu com os dez anos de cavaquismo e com o culto criptofascista da juventude pela juventude, que conduziu ao saneamento dos melhores quadros nas empresas e à remoção de grandes jornalistas substituídos por gente "de confiança."
É cada vez mais necessário analisar as razões fundas do estado a que Portugal chegou. E não há inocentes. O rancor e o ressentimento não são, apenas, produtos das injustiças sociais. São-no, também, resultados do medo.
Artigo de opinião de Baptista-Bastos, publicado no Jornal de Negócios, em 20 de Novembro de 2009
O Caminho Branco
Vou por um caminho branco
Viajo sem levar nada.
Minhas mãos estão vazias.
Minha boca está calada.
Vou só com o meu silêncio
e a minha madrugada.
Não escuto, entre os barrancos,
a voz do galo estridente
que, na treva do terreiro,
anuncia as alvoradas.
Nem mesmo escuto a minha alma:
não sei se ela vai dormindo
ou me acompanha acordada,
se ela é vento ou se ela é cinza
ou nuvem rubra raiante
no dia que se levanta
como vela desdobrada
em nave que corta as vagas.
Não sei nem mesmo se é alma
ou apenas sal de lágrimas.
Vou por um caminho branco
que parece a Via Láctea.
Só sei que vou tão sozinho
que nem sequer me acompanho,
como se eu fosse um caminho
pisado por vulto estranho.
Não sei se é dia ou se é noite
o que surge à minha frente,
se é fantasma do passado
ou vivente do presente.
Não sei se é a torrente clara
da água que corre entre pedras
ou se um gavião me espreita
oculto no nevoeiro,
espantalho prometido
ao meu dia derradeiro.
Atravessando barrancos
e plantações de tomate
e ouvindo o canto escarlate
de airosos galos polacos,
vou por um caminho branco:
brancura de bruma e prata.
Entre tufos de carqueja
há constelações de orvalho
e um clarão de meio-dia
cega a minha madrugada.
Vou como vim, sem saber
a razão da travessia.
Nem sequer levo na boca
o gosto de água salgada
que relembra a minha infância
feita de mar e de mangue.
Nem sequer levo nos olhos
- nos meus olhos de menino -
a mancha rubra de sangue
deixada pelo assassino
que vi certa madrugada.
Vou por um caminho branco
e nada levo nem tenho:
nem ninho de passarinho
nem fogo santo de lenho.
Só vou levando o meu nada.
Foi tudo quanto juntei
para oferecer a Deus
nesta madrugada.
Lêdo Ivo, in “ Poesia Completa", Ed. Topbooks, Rio de Janeiro
quarta-feira, 8 de maio de 2013
baptista bastos
Sonata para um menino que está a chegar
Por Baptista Bastos
Vens juntar-te nós e, em si mesma, a tua vinda é já um acto de comovente beleza. Há muito que te esperávamos, provindo dessa interminável sequência na qual se tecem os fios da nossa condição. As coisas não estão boas, por aqui. Mas os tormentos que nos assolam não calam a voz das nossas esperanças. Vem, menino. Pertences a uma estirpe que acendeu o seu lume em muitos campos alheios e fez um leito de nações num concerto de poesia que dura há séculos. Que quer, rigorosamente, dizer isto? Que o parágrafo das nossas vidas tem sido extenso e que, no encontro com os outros, alargámos os laços da nossa pessoal intimidade.
Vem, menino. Menino novo, cujo coração unânime vai bater como o coração de um anjo que sorri e nos acena. Sei que vais ser um menino feliz, como eu sou feliz ao escrever esta afirmação pausada. Menino feliz porque te espera um coro de risos, de faces radiantes; a paixão de quem quer dar tudo pela fortuna de te ter consigo e o regozijo de nos pertenceres para te pertencermos.
Há muito que te esperávamos. Há muito que te esperava, como o louvor de uma boa nova ou o sinal de uma luz rigorosa para a festa de todas as festas. E aí vens.
Já se sabe como é o mundo: sombrio e venal, cobarde e duro, obscuro e triste, glorioso e valente, tímido e arrogante, calado e grosseiro. Já se sabe. Mas a qualidade áurea das criaturas que o habitam e que o moldam, com a argila das suas individuais deficiências, faz com que, todos os anos, continuemos a acreditar. E assim nascem meninos como tu, produtos dessa crença confusa na concórdia que nos impele para todos os recomeços.
Em cada ano que atravessa outro ano renovam-se os risos, remoçam os alvoroços, renascem os velhos no olhar dependente dos meninos, porque os velhos são meninos que se prolongam na pontualidade e no espanto das coisas permanentemente inauguradas. A vida, como é hábito.
Espero-te com a emoção de quem viajou por muitos bares, muitas cartografias, por muitas palavras, por muitos socalcos. Mas não quero dar-te conselhos. Os conselhos são o modo de os antigos imporem uma ridícula superioridade. A expressão: "No meu tempo..." é o início de algo de enfadonho; a fastidiosa e inútil frase que pretende doirar o passado de misérias e afrontas. Como se isso fosse possível. O tempo é todo nosso, o teu e o meu, pode levar tudo, mas nunca lava tudo.
O mundo anda atrapalhado e aflito. Há quem pense que deixou de haver lutas e que a nitidez do entendível perdeu-se no opaco e na desistência. Vais ver que as realidades não são bem assim e que as razões da existência dispõem de argumentos poéticos com os quais se pode enfrentar a manipulação, a omissão, o medo e a mentira.
Não te demores.
Artigo de Opinião de Baptista Bastos no DN, 29/12/2010
Por Baptista Bastos
Vens juntar-te nós e, em si mesma, a tua vinda é já um acto de comovente beleza. Há muito que te esperávamos, provindo dessa interminável sequência na qual se tecem os fios da nossa condição. As coisas não estão boas, por aqui. Mas os tormentos que nos assolam não calam a voz das nossas esperanças. Vem, menino. Pertences a uma estirpe que acendeu o seu lume em muitos campos alheios e fez um leito de nações num concerto de poesia que dura há séculos. Que quer, rigorosamente, dizer isto? Que o parágrafo das nossas vidas tem sido extenso e que, no encontro com os outros, alargámos os laços da nossa pessoal intimidade.
Vem, menino. Menino novo, cujo coração unânime vai bater como o coração de um anjo que sorri e nos acena. Sei que vais ser um menino feliz, como eu sou feliz ao escrever esta afirmação pausada. Menino feliz porque te espera um coro de risos, de faces radiantes; a paixão de quem quer dar tudo pela fortuna de te ter consigo e o regozijo de nos pertenceres para te pertencermos.
Há muito que te esperávamos. Há muito que te esperava, como o louvor de uma boa nova ou o sinal de uma luz rigorosa para a festa de todas as festas. E aí vens.
Já se sabe como é o mundo: sombrio e venal, cobarde e duro, obscuro e triste, glorioso e valente, tímido e arrogante, calado e grosseiro. Já se sabe. Mas a qualidade áurea das criaturas que o habitam e que o moldam, com a argila das suas individuais deficiências, faz com que, todos os anos, continuemos a acreditar. E assim nascem meninos como tu, produtos dessa crença confusa na concórdia que nos impele para todos os recomeços.
Em cada ano que atravessa outro ano renovam-se os risos, remoçam os alvoroços, renascem os velhos no olhar dependente dos meninos, porque os velhos são meninos que se prolongam na pontualidade e no espanto das coisas permanentemente inauguradas. A vida, como é hábito.
Espero-te com a emoção de quem viajou por muitos bares, muitas cartografias, por muitas palavras, por muitos socalcos. Mas não quero dar-te conselhos. Os conselhos são o modo de os antigos imporem uma ridícula superioridade. A expressão: "No meu tempo..." é o início de algo de enfadonho; a fastidiosa e inútil frase que pretende doirar o passado de misérias e afrontas. Como se isso fosse possível. O tempo é todo nosso, o teu e o meu, pode levar tudo, mas nunca lava tudo.
O mundo anda atrapalhado e aflito. Há quem pense que deixou de haver lutas e que a nitidez do entendível perdeu-se no opaco e na desistência. Vais ver que as realidades não são bem assim e que as razões da existência dispõem de argumentos poéticos com os quais se pode enfrentar a manipulação, a omissão, o medo e a mentira.
Não te demores.
Artigo de Opinião de Baptista Bastos no DN, 29/12/2010
"É da tua mão que eu preciso agora. Há momentos, sabes, que me sinto tão cansado, todos estes dias cheios de palavras que me fogem. Então penso em ti: Joana. Penso: vou contar-te uma coisa. Há pouco tempo morreu a filha de um amigo meu, homem generoso e bom, melhor do que alguma vez fui. Um cemitério é um lugar horrível e a dor dele doía-me. Depois de tudo acabar voltei para o automóvel. Eram muitos passos nas veredas a voltarem para os automóveis. O caixãozinho branco. Aquelas árvores que tu conheces de quando a gente há dois anos. Despedi-me das pessoas um pouco ao acaso, sem sentir os dedos que apertava: têm tantos dedos as pessoas. Nem me lembro já porquê abri a mala do carro. Estavam lá dentro coisas tuas de Espanha: batas, papéis, as inutilidades confusas que estás sempre a juntar. Peguei numa das tuas batas, abracei-a. E desatei num choro de menino, de cabeça inclinada para a mala do carro na esperança de que não me vissem. Depois lá enxuguei o nariz à manga nunca perdi o hábito de enxugar o nariz à manga engoli-me a mim mesmo e vim-me embora. Sempre que me sento no teu carro lembro-me de ti. Também me lembro quando não me sento no carro mas sempre que me sento no carro lembro-me de ti. De ti e de Malanje onde começaste a ser, e as mangueiras tremem-me no interior do sangue.Mas é da tua mão que eu preciso agora. Há momentos em que me farto de ser homem: tudo tão pesado, tão estranho, tão difícil. Eu vou tendo paciência e no entanto, às vezes as coisas magoam, há ideias que entram na gente como espinhos. Não se podem tirar com uma pinça: ficam lá. É então que a cara principia a estragar-se e a gente diz e envelhece. Necessito de muito pouca coisa hoje em dia: uns livros, o meu trabalho de escrever, amigos que se estreitam com o tempo, alguns deixados para trás, não sei onde. A minha avó dizia que fui a pessoa por quem chorava mais. Nunca acreditei. Era autoritária, mimada, sedutora: tratava-me tão bem! Jogávamos a ver qual de nós dois conquistava o outro: andávamos mais ou menos empatados (sabes como detesto perder)e nisto ela morreu. Recordo-me de sair de sua casa e vir à cervejaria comer. Ainda não tinha tempo de sentir-lhe a ausência. Pedi o jornal desportivo ao empregado. Ao voltar para cima achei-a vestida sobre a cama.Agora é Novembro, tenho frio, ando às voltas com um romance de que não estou a gostar. Nunca estou a gostar do que escrevo, acho aquele em que trabalho o mais difícil, acho que as palavras me derrotam. Frases puxadas como pedras de um poço que não vejo. Banalidades que me indignam por estarem tão longe do que quero. Capítulos que me fogem, o plano da história dinamitado pelos caprichos da minha mão, que não faz o que pretendo: escapa-se sempre, inventa, tenho de apanhá-la a meio de um período inverosímil. Talvez seja por isso que preciso da tua. Ou não por isso: não bebo e no entanto há alturas em que me sinto tão só que é quase o mesmo. E sem essa solidão não me é possível escrever. O meu amigo a quem morreu a filha chama-se José Francisco. Quando sorri os cantos da boca parecem levantar voo. Faz-me bem. Gostava de sorrir assim. Experimentei ao espelho e não é igual. Quer dizer, a boca curvou-se mas os olhos ficaram fixos, duros. Deixei de sorrir e enchi a cara de espuma da barba, até ser apenas nariz e olhos. Então sorri outra vez e os olhos acharam graça e mudaram. Os meus olhos sérios olhavam para os meus olhos divertidos. Pisquei o esquerdo e o espelho piscou o direito. Lavei a cara, apaguei a luz, saí. Por um segundo veio-me a sensação de caminhar em Malanje. Aquele cheiro da terra, demorado, opaco, violento. E pronto, é tarde. Em chegando ao fim da página acabou-se. Ponho a tampa na caneta, os cotovelos na mesa e fico a observar a parede. Nem vou reler isto, mando tal e qual. Prefiro observar a parede, deixar-me impregnar devagarinho pela essência das coisas. Esta cadeira, aquele móvel, uma manchinha de cinza no chão, as minhas mãos geladas de frio a acabarem esta crónica. Se calhar amanhã telefono-te. Ou regresso ao romance na teimosia dos cães. Penso: nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. Comecei-o no princípio de Outubro, falta muito. Alinho os papéis, ponho tudo em ordem para a escrita. Nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. Leio a última frase, continuo. Só por um bocadinho de nada, antes que continue, importas-te de tirar as batas do carro? Importas-te de me dar a mão?"António Lobo Antunes, in Segundo Livro de Crónicas(SLC) ,2006
terça-feira, 7 de maio de 2013
>"Chamava-se Francisco Carreira e era sapateiro. A sua loja era um escuro cubículo sem janelas, com uma porta por onde só crianças podiam entrar sem se curvarem, pois pouco mais haveria de ter que um metro e meio de altura. Sempre o vi sentado no mocho, atrás de uma banca em cima da qual dispunha os utensílios do ofício e onde se viam, emergindo de uma imemorial camada de terriço, pregos tortos, aparas de sola, alguma agulha romba, um alicate sem serventia. Era um homem doente, gasto antes do tempo, com a coluna vertebral deformada. Toda a sua força se lhe juntara nos braços e nos ombros, potentes como alavancas. Com eles batia a sola, dava cera na linha, repuxava os pontos e apontava as cardas com duas pancadas secas que nunca lhe vi falhar. Enquanto eu me entretinha a fazer buracos num pedaço de cabedal com um vazador ou remexia na água a que a sola de molho dava o toque adstringente do tanino, contava-me histórias da sua mocidade, difusas conspirações políticas, a pistola que lhe havia sido mostrada como tenebroso aviso e que , palavras do avisador, se destinava a quem traísse a causa... Depois perguntava-me como ia nos estudos, que notícias tinha do que se ia passando em Lisboa, e eu desenrascava-me o melhor que podia para satisfazer-lhe a curiosidade. Um dia encontrei-o preocupado. Alisava os cabelos ralos com a sovela, suspendia o movimento dos braços ao puxar a linha, sinais que eu bem lhe conhecia e que anunciavam uma pergunta de especial importância. Daí a pouco o Francisco Carreira inclinava para trás o corpo torcido, empurrava os óculos para a testa e disparava à queima-roupa: " O amigo acredita na pluralidade dos mundos?" Ele tinha lido Fontenelle, eu não, ou só de ouvido gozaria de alguma escassa luz sobre o assunto. Engrolei uma resposta sobre o nome de Copérnico, e por aí me fiquei. De todo o modo, sim, acreditava na pluralidade dos mundos, a questão estava em saber se haveria lá alguém. Ele deu-se por satisfeito, ou assim me pareceu, e eu respirei de alívio. Muitos anos depois escreveria sobre ele duas páginas a que daria o título , obviamente inspirado em Lorca, de " O Sapateiro Prodigioso". Que outra palavra poderia eu usar senão essa? Um sapateiro da minha aldeia , nos anos 30, a falar de Fontenelle..."
José Saramago, in " As pequenas Memórias", Editorial Caminho, 2006
José Saramago, in " As pequenas Memórias", Editorial Caminho, 2006
urbanismo
urbanismo
ainda há cães que ladram a noite fora
de dentro de casas com pequenos quintais
onde alguém conseguiu pôr uma cadeira atravessada
uma mesa
conheço um sítio onde uma senhora rega
uma planta na rua
e outro onde não se estaciona no passeio
tenho um amigo que não tranca a porta de casa
janelas sem persianas
tocando a rua onde velhas
espreitam os carros a tarde inteira
respirando o reflexo de seu bafo nos vidros
são vasos
casinhas térreas entre prédios
abandonadas pelo tempo
com cadáveres lá dentro
fedendo ao tiro que lhes deram nas costas
Pedro Afonso
ainda há cães que ladram a noite fora
de dentro de casas com pequenos quintais
onde alguém conseguiu pôr uma cadeira atravessada
uma mesa
conheço um sítio onde uma senhora rega
uma planta na rua
e outro onde não se estaciona no passeio
tenho um amigo que não tranca a porta de casa
janelas sem persianas
tocando a rua onde velhas
espreitam os carros a tarde inteira
respirando o reflexo de seu bafo nos vidros
são vasos
casinhas térreas entre prédios
abandonadas pelo tempo
com cadáveres lá dentro
fedendo ao tiro que lhes deram nas costas
Pedro Afonso
«Há sujeições que posso tornar públicas e essas são os gatos e a escrita. Devo dizer que reconheço nas duas entidades semelhanças. Talvez os gatos e a escrita tenham vindo do mesmo ovo que um deus fertilizou. Instalaram um trono vitalício dentro da minha vida desde cedo. Incorporei-os tão intensamente que nem sei onde acabo e eles começam. Há uma simbiose que pertence à mais baixa biologia. Mas a palavra simbiose é mal escolhida. Eles viveriam muito bem sem mim. Eu, sem eles, é que não. E sabem isso. Sabem perfeitamente que dominam.
Comportam-se ambos com igual sobranceria. Vêm se querem, quando querem, para que os sirva, mas se sou eu a convocá-los, não me ligam. Se entendem que lhes devo abrir a porta, chamam às horas mais desconfortáveis. Lá me levanto, às quatro da manhã, ou para escrever ou para deitar whiskas no prato. A retribuição é coisa pouca: um roçar pelas pernas, uma frase. E eu, ciente da minha condição, renunciando à dignidade humana, agradeço a bondade do incómodo.»
Hélia Correia
Comportam-se ambos com igual sobranceria. Vêm se querem, quando querem, para que os sirva, mas se sou eu a convocá-los, não me ligam. Se entendem que lhes devo abrir a porta, chamam às horas mais desconfortáveis. Lá me levanto, às quatro da manhã, ou para escrever ou para deitar whiskas no prato. A retribuição é coisa pouca: um roçar pelas pernas, uma frase. E eu, ciente da minha condição, renunciando à dignidade humana, agradeço a bondade do incómodo.»
Hélia Correia
segunda-feira, 6 de maio de 2013
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Passagem
Que me deixem passar
- eis o que peço diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar, exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar por seu eu diferente ou indesejado
mesmo assim eu passarei.
Inventarei a porta e o caminho e passarei sozinho".
Lêdo Ivo, in "O Rumor da Noite",Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro – 2000
Voto de Natal
Acenda-se de novo o Presépio do Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.
E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!
Filhos, as vossas mãos. E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida...
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.
Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
Ó calor destas mãos nos meus dedos tão frios!
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.
1960
David Mourão-Ferreira, "Cancioneiro de Natal", in Obra Poética 1948-1988, Editorial Presença, 1996, 2.ª edição
Cada um
Cada um só tem verdadeiramente a pátria que se inventa, quer dizer, a casa ideal onde o que é e o que faz se lhe volve transparente e fora da qual se sente, por assim dizer, perdido."
Eduardo Lourenço, 1999
Eduardo Lourenço, 1999
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