quarta-feira, 5 de novembro de 2014

«Fomos os Portugueses

«Fomos os Portugueses intolerantes e fanáticos dos séculos XVI, XVII e XVIII: somos agora os Portugueses indiferentes do século XIX.»
«Que é pois necessário para readquirirmos o nosso lugar na civilização? Para entrarmos outra vez na comunhão da Europa culta? É necessário um esforço viril, um esforço supremo: quebrar resolutamente com o passado. Respeitemos a memória dos nossos avós: memoremos piedosamente os actos deles: mas não os imitemos. Não sejamos, à luz do século XIX, espectros a que dá uma vida emprestada o espírito do século XVI. A esse espírito moral oponhamos francamente o espírito moderno.»
«Somos uma raça decaída por ter rejeitado o espírito moderno: regenerar-nos-emos abraçando francamente esse espírito. O seu nome é Revolução: revolução não quer dizer guerra, mas sim paz: não quer dizer licença, mas sim ordem, ordem verdadeira pela verdadeira liberdade. Longe de apelar para a insurreição, pretende preveni-la, torná-la impossível: só os seus inimigos, desesperando-a, a podem obrigar a lançar mãos das armas. Em si, é um verbo de paz, porque é o verbo humano por excelência.»

Antero de Quental, “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, Guimarães Editores, 2001

Hipótese


 «Caius toma a palavra acerca de cheiros e avança uma hipótese sobre a origem do fedor:
- Antes de nascer, somos os cadáveres de uma vida de que não temos memória e andamos a flutuar no fundo do oceano.
Enquanto as nossas mães nos trazem na barriga, inchamos, enchemo-nos de ar, apodrecemos, vamos subindo lentamente até à superfície desse oceano.
Bruscamente, o nascimento lança-nos para a costa. É uma espécie de vaga violenta e súbita. T. Lucretius Carus dizia que em cada dia da nossa vida abordamos continuamente uma costa de luz.
Como o sol bate forte, começamos a cheirar mal, a decompor-nos e irrompemos a gritar.
Ao morrer, voltamos à profundidade, ao silêncio e à doçura inodora do abismo.»

Pascal Quignard, "As Tábuas de Buxo de Apronenia Avitia", Cotovia, 1999

«Meu amor

«Meu amor - que amor? Não és tu. És, és. Não és. Na realidade não sei. Na realidade há o que existe, o que se diz um facto, o que se avalia ao quilo ou ao quilómetro. E há o que nos existe, aquilo que está por dentro ou nós por dentro disso - vou amar o teu corpo como nunca te amei. Um corpo é tão misterioso e o nosso mistério com ele. Tenho muita coisa a dizer-te, isso que espere. Porque eu amei o teu corpo de tanta maneira, não sei se contigo também aconteceu assim. Ama-se um corpo como instrumento de amar, como forma de onanismo de que o trabalho é dele. Ou como êxtase de um terror paralítico. Ou como orientação ao impossível que não está lá. Com raiva desespero de quem já não pode mais e não sabe o quê. Como avidez insuportável não de o ter tido na mão, porque o podemos ter nela, sofregamente, boca seios o volume quente harmonioso da anca e tudo esmagar-se até à fúria, ter o que aí se procura e que é o que lá está, mas não o que está atrás disso e é justamente o que se procura e se não sabe o que é nem jamais poderemos atingir.»

Vergílio Ferreira, "Em Nome da Terra", Bertrand Editora, 1990