Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato
Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gin enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena
Chega-se a este ponto Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo
Rola mais um trovão Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe
David Mourão Ferreira
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Circulares
I
Vem, que os sinos não tocaram
e ainda fez pouco tempo desde que me vesti de orquídeas,
sinto a folha nítida à flor da pele
e tenho o corpo entorpecido da chuva.
Isto não é medo dos barcos, mas antes um olhar arrefecido
por um momento de silêncio são horas de voltarmos ao cais azulado
e fazermos as despedidas de verdade.
Vem, que te encontrarei em qualquer pedaço de rua,
ou nos poços que povoam a cidade: é de ti que falarei
a vida inteira até quando abrir o jornal e encontrar um velho a sorrir,
hão-de subir-me as lágrimas ao pescoço e correrei à aldeia de terra batida,
no caminho levo águas e umbrais para que as gaivotas se não sintam sós:
então será um desfiar de rosários eternos,
como o choro de minha mãe. Quando chegar
todos estarão em fila com os olhos pregados no horizonte
(será inútil lembrar-lhes os heróis antigos)
à espera dos meus sonhos que ouviram contar.
É por isso que as casas são de granito
e a lenha não chega para tantas ilusões.
Terei que ir devagar e pensar na janela que ficou do lado das sombras,
terei que resolver as entranhas dos mortos para descobrir uma rosa
terei que fechar a porta com cabelos loiros
e então dizer-lhes
que não tenho mãos.
É quando os homens vão gritar pelos espelhos
e as mulheres ajoelhar frente ao sol,
mesmo assim conseguirei rodear-me de tojo,
fingir que tenho o mar ali ao virar das cruzes,
que os amigos não me abandonaram.
Será supremo o trigo quente e o sabor dos frutos
como se tivesse comigo um homem para afagar os olhos, ou então chorar.
Viverei das cores que me arrepiam os sentidos
porque isso bastará para curar cicatrizes, a face esfregá-la-ei com urtigas
para que os lábios não tenham tempo de secar.
Com a maior das solenidades cairei por terra:
— que me atirem ao vento para poder finalmente voar
e amar sem grilhetas nos gestos
Mas a primavera ainda não voltou,
Vem, que tenho muitas viagens por fazer.
Porto, 1980
Ãngela Marques
O mistério
...
O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura
Pe. Tolentino de Mendonça
O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura
Pe. Tolentino de Mendonça
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Cena de Inverno
CENA DE INVERNO
Parada no meio do campo, na tarde de chuva,
a mulher não avança para o meio da estrada, nem recua
para perto da casa. Apanha chuva, com a cabeça virada
para o chão, como se esperasse que a terra a engula,
ou que o céu se esqueça dela, e as nuvens se afastem.
Numa tarde de chuva, no meio do campo, há mulheres
que não sabem para onde ir; e entre a casa e a estrada
ficam paradas, ouvindo o ruído da chuva, e pensando
na vida que as levou para o meio do campo, indecisas
entre a terra e o céu, enquanto a chuva não pára.
Ao ver a mulher parada no meio do campo, pensei
em chamá-la, para que saísse de dentro da lama; mas
continuei o meu caminho, como se ela não existisse,
sabendo que se parasse ao lado dela também eu olharia
para o chão, até que a terra me engolisse.
Nuno Judice
Parada no meio do campo, na tarde de chuva,
a mulher não avança para o meio da estrada, nem recua
para perto da casa. Apanha chuva, com a cabeça virada
para o chão, como se esperasse que a terra a engula,
ou que o céu se esqueça dela, e as nuvens se afastem.
Numa tarde de chuva, no meio do campo, há mulheres
que não sabem para onde ir; e entre a casa e a estrada
ficam paradas, ouvindo o ruído da chuva, e pensando
na vida que as levou para o meio do campo, indecisas
entre a terra e o céu, enquanto a chuva não pára.
Ao ver a mulher parada no meio do campo, pensei
em chamá-la, para que saísse de dentro da lama; mas
continuei o meu caminho, como se ela não existisse,
sabendo que se parasse ao lado dela também eu olharia
para o chão, até que a terra me engolisse.
Nuno Judice
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
O Amor
Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos
,e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.
Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência? Ou
impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão subtil da vida?
Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
connosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.
Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta. Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus.
Nuno Judice
As coisas
As coisas limitam-se a ser o que são
quando as olhamos de frente, como esse cão
que enfrentou o céu e não teve resposta.
Outras coisas são mais simples do que
pensamos, quando as definimos entre o
que são e o que não sabemos delas.
O cão perdido no areal pode ser uma dessas
coisas, quando transforma as ondas na
sua matilha, e elas vão atrás dele.
Como se as ondas fossem animais,
e o mar respirasse pelas suas bocas
quando perseguem o cão que as espera.
Nuno Judice
quando as olhamos de frente, como esse cão
que enfrentou o céu e não teve resposta.
Outras coisas são mais simples do que
pensamos, quando as definimos entre o
que são e o que não sabemos delas.
O cão perdido no areal pode ser uma dessas
coisas, quando transforma as ondas na
sua matilha, e elas vão atrás dele.
Como se as ondas fossem animais,
e o mar respirasse pelas suas bocas
quando perseguem o cão que as espera.
Nuno Judice
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Onan dos outros
ONAN DOS OUTROS!...
Onan dos outros! Ó deus que dás confiança
Só a quem já confia!
E não à morrente ou garça mão que se ansa
Varonil e vazia.
O Virgem Negra, tal me descobriram
Cincoenta anos depois,
Em minha infusão estou. Tombam, deliram
Em vão quantos seguiram
Minha viagem ao nunca ser dois.
No seu andor de luto e de desgraça
O Virgem Negra passa
Maior que todos os sóis.
Mário Cesariny
Onan dos outros! Ó deus que dás confiança
Só a quem já confia!
E não à morrente ou garça mão que se ansa
Varonil e vazia.
O Virgem Negra, tal me descobriram
Cincoenta anos depois,
Em minha infusão estou. Tombam, deliram
Em vão quantos seguiram
Minha viagem ao nunca ser dois.
No seu andor de luto e de desgraça
O Virgem Negra passa
Maior que todos os sóis.
Mário Cesariny
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
No aniversario da diva
NO ANIVERSARIO DA DIVA
Passam por nós os anos, ígneos pássaros
apressados, e caem muitas penas
Passam por nós os anos: são cavalos
nervosos frente aos toiros nas arenas
Mas não envelhecemos sempre esperançados
na juventude eterna que não deixa marcas
Estamos marcados desde que nascemos,
transviados por onde não há estradas:
somente caminhadas sem sair de becos,
miragens de desertos nos confins das ilhas
Passam por nós os anos e só fica
um sulco que se fecha na memória em ferida
António barahona
Passam por nós os anos, ígneos pássaros
apressados, e caem muitas penas
Passam por nós os anos: são cavalos
nervosos frente aos toiros nas arenas
Mas não envelhecemos sempre esperançados
na juventude eterna que não deixa marcas
Estamos marcados desde que nascemos,
transviados por onde não há estradas:
somente caminhadas sem sair de becos,
miragens de desertos nos confins das ilhas
Passam por nós os anos e só fica
um sulco que se fecha na memória em ferida
António barahona
Sou um pescador
Sou um pescador sem mar. pelo menos não sou um pescador do mar que vejo. navego noutras águas escondido sob o manto escuro da noite. lanço as minhas artes, e no meio da tormenta, na claridade cegante dos relâmpagos, oriento a proa da vida à terra imaginada. nas redes levo prisioneiros alguns corpos de passagem pelos abismos de Poseidon. largo-os dentro dos espelhos que são o meu cárcere. ali aprisiono rostos, mãos, pedaços de memória, ali onde meu reflexo se ergue e me olha fixamente e parece desejar-me.
sou um pescador sem mar. ando à procura da alma que se deixará prender no enleio das minhas artes. procuro o corpo exacto que me envolva a alma porque o corpo onde navega perdeu o juízo, vai à deriva por águas cada vez mais próximas da loucura. a sua boca já não emite sons e dentro do peito não ecoa nenhum nome. a sua boca já não emite sons e dentro do peito não ecoa nenhum nome. a noite desceu sobre os ossos, revestindo-os de silêncio. ouço-me através das horas onde não estou.
(...)
Al Berto
in, Diários
Assírio & Alvim
2012
sou um pescador sem mar. ando à procura da alma que se deixará prender no enleio das minhas artes. procuro o corpo exacto que me envolva a alma porque o corpo onde navega perdeu o juízo, vai à deriva por águas cada vez mais próximas da loucura. a sua boca já não emite sons e dentro do peito não ecoa nenhum nome. a sua boca já não emite sons e dentro do peito não ecoa nenhum nome. a noite desceu sobre os ossos, revestindo-os de silêncio. ouço-me através das horas onde não estou.
(...)
Al Berto
in, Diários
Assírio & Alvim
2012
lisboa
lisboa (2)
desejaste um país de silêncio
de chuvas salgadas - sem caminhos nem sonhos
tiveste um país sombrio
onde a realidade devorou o delírio e
ficou desabitado - este país nocturno que geme
contra a solidão do corpo - perguntas-te
que espécie de lume cospem os cardos?
caberá o mar dentro da tua ausência? E o caule
negro dos analgésicos por mim acima... que cidade
de areia construída grão a grão aparecerá?
quantas lisboas estão enterradas? ou submersas?
o vento traz-te o aroma dos trópicos
dos tamarindos floridos das avenidas e dos fenos
primaveris das planícies - o vento
protege-te - leva-te no alado ácido
das geadas e das incertezas
dirás coisas alucinadas – as almas
uma álea de roseiras e
da bruma desprende-se
o adocicado olor da morte
Al Berto
in, O Último Coração do Sonho
desejaste um país de silêncio
de chuvas salgadas - sem caminhos nem sonhos
tiveste um país sombrio
onde a realidade devorou o delírio e
ficou desabitado - este país nocturno que geme
contra a solidão do corpo - perguntas-te
que espécie de lume cospem os cardos?
caberá o mar dentro da tua ausência? E o caule
negro dos analgésicos por mim acima... que cidade
de areia construída grão a grão aparecerá?
quantas lisboas estão enterradas? ou submersas?
o vento traz-te o aroma dos trópicos
dos tamarindos floridos das avenidas e dos fenos
primaveris das planícies - o vento
protege-te - leva-te no alado ácido
das geadas e das incertezas
dirás coisas alucinadas – as almas
uma álea de roseiras e
da bruma desprende-se
o adocicado olor da morte
Al Berto
in, O Último Coração do Sonho
(...) Uma ave
(...)
Uma ave escorre dos olhos, desce pelo rosto...
A noite magia.
Serei ainda capaz de amar?
De mim me despeço, como um barco que solta as velas e sonolento tacteia o caminho para a manhã.
Que luz será esta? Que incertezas me devolve esse mar do outro lado do espelho?
Toco o rosto de vidro insone ergo a boca para o vácuo e chamo por mim.
(...)
Al Berto
in, DIÁRIOS
Assírio & Alvim
2012
Uma ave escorre dos olhos, desce pelo rosto...
A noite magia.
Serei ainda capaz de amar?
De mim me despeço, como um barco que solta as velas e sonolento tacteia o caminho para a manhã.
Que luz será esta? Que incertezas me devolve esse mar do outro lado do espelho?
Toco o rosto de vidro insone ergo a boca para o vácuo e chamo por mim.
(...)
Al Berto
in, DIÁRIOS
Assírio & Alvim
2012
Simulacro de suicídio por soberba
SIMULACRO DE SUICÍDIO
POR SOBERBA
O mundo era estúpido demais
para a sua inteligência
- assim pensou e permaneceu calado
perante si próprio
pronto para o último acto
Cavou um abismo ao fundo da água,
calculou a distância entre o som e a sombra,
e atirou-se de pé
Doía-lhe o coração a cair de pedra
Lx., 8.XII.99.
António barahona
POR SOBERBA
O mundo era estúpido demais
para a sua inteligência
- assim pensou e permaneceu calado
perante si próprio
pronto para o último acto
Cavou um abismo ao fundo da água,
calculou a distância entre o som e a sombra,
e atirou-se de pé
Doía-lhe o coração a cair de pedra
Lx., 8.XII.99.
António barahona
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Ausência
Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
Ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
Magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
Por isso, de deixar alguns sinais - um peso
Nos olhos, no lugar da tua imagem, e
Um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
Tivessem roubado o tacto. São estas as formas
Do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
As coisas simples também podem ser complicadas,
Quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a
Realidade aproxima-me de ti, agora que
Os dias correm mais depressa, e as palavras
Ficam presas numa refracção de instantes,
Quando a tua voz me chama de dentro de
Mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
Como dizer que a tua ausência me dói.
Nuno judice
Traço Comum
descalço-me de sombras para chegar a ti
as linhas do meu rosto são claríssimas
nelas não vês o velho, a criança, o adulto
vês apenas o traço comum
que é onde eu procuro a tua mão
na transparência da minha palavra inteira
Vasco Gato
Esplanada
Os símbolos do tempo
Deixemo-nos de coisas. Este país é um detector-de-metais que não detecta. Este país é um espremedor-de-frutas que não espreme. Este país é um gramofone com a agulha encravada há décadas. Este país é um micro-ondas com infinito temporizador. É um artesanal saca-rolhas que nada saca. Um terror. Este país é uma gaiola de enguias, de serpentes. Alegorias. Este país é uma arca congeladora de torrentes e correntes e muitas coisas mais. Este país é um anticiclone, particularmente ventoso e pluvioso. Este país é um MG Metro sem catalisador. É uma montanha íngreme por transpor. Este país é, com a beleza de todas as indefinições, um coiso. E está tudo dito. Andaram anos, coléricos, a reclamar o combate (atenção que é metafórico) à economia paralela, mas agora, quando o ringue está montado e o combate principia, queixam-se que «é muito papel». De facto, ser «cidadão» dá muito trabalho e requer espaço de arquivo. Não é para todos. Este país é uma brigada de máquinas-registadoras por usar. É uma bonita paisagem de algas, eucaliptos, retro-escavadoras e caminhos por andar. Como dantes.
Deixemo-nos de coisas. Este país é um detector-de-metais que não detecta. Este país é um espremedor-de-frutas que não espreme. Este país é um gramofone com a agulha encravada há décadas. Este país é um micro-ondas com infinito temporizador. É um artesanal saca-rolhas que nada saca. Um terror. Este país é uma gaiola de enguias, de serpentes. Alegorias. Este país é uma arca congeladora de torrentes e correntes e muitas coisas mais. Este país é um anticiclone, particularmente ventoso e pluvioso. Este país é um MG Metro sem catalisador. É uma montanha íngreme por transpor. Este país é, com a beleza de todas as indefinições, um coiso. E está tudo dito. Andaram anos, coléricos, a reclamar o combate (atenção que é metafórico) à economia paralela, mas agora, quando o ringue está montado e o combate principia, queixam-se que «é muito papel». De facto, ser «cidadão» dá muito trabalho e requer espaço de arquivo. Não é para todos. Este país é uma brigada de máquinas-registadoras por usar. É uma bonita paisagem de algas, eucaliptos, retro-escavadoras e caminhos por andar. Como dantes.
Coisas que não há que há
Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia...
Manuel António Pina
Os Pássaros de Londres
Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos
Mário Cesariny, in Poemas de Londres
Liberdade
Contigo,
Rebolo na erva dos prados,
Abraçando o sol ao meio dia.
Não importa a língua que falo,
Ou se a noite já baixou.
Canto árias,
Danço tangos e boleros
Pela terra acabada de lavrar.
Enfio-me nas florestas,
E brinco às escondidas com o lobo mau.
Contigo,
Como amoras silvestres,
E sujo a boca no sumo das laranjas.
Monto cavalos de espuma.
Cubro-me de lama
E banho-me em ribeiros cristalinos.
Ando descalça pelos campos de searas,
E peço à chuva que me molhe,
E às estrelas que mudem de lugar.
Contigo,
Galgo montanhas
E sei de cor o nome das nuvens.
Atravesso tempestades e vendavais
E adormeço numa cama de musgo.
Deito-me nua ao luar,
E gozo o frio das geadas.
Contigo,
Acendo fogueiras no deserto,
E toco uma balada para o vento.
Contigo,
Sou um pássaro com asas a crescer.
(Helena Figueiredo)
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
...desconheço o nome do pássaro
... desconheço o nome do pássaro que canta toda a noite…
Lembro-me de quando pensava que a lua era de açúcar. Sentado
Nos degraus de cimento à entrada da casa, olho a roupa estendida
sobre a relva, os hibiscos vermelhos tremiam no incêndio do crepúsculo.
Ficava muito quieto, tempos em fim, à espera que a noite descesse e
Lentamente escorregasse pela superfície das coisas, e como ilusionista
Fizesse tudo desaparecer.
Então erguia os olhos para o percurso vagaroso dos astros e sentia-me
Ficar adulto.
Crescia dentro e fora de mim. Amanhã seria o último dia que jogaria ao berlinde.
(… É tudo tão triste, a noite, o dia, as horas, estas horas da noite com os
olhos postos no mar, e nada acontece, nada…)
(…)
Silêncios, silêncios de todos os géneros circulam no meu sangue.
Silêncios inexplicáveis, silêncios que vêm dalgum lado desconhecido
do meu corpo, do sul muito ao sul da memória. E as moscas voam
em volta do candeeiro, desesperadamente. O silêncio mais constrangedor
emana-se delas, do ruído surdo das asas cortando o ar.
Ouço-me agora atentamente, as mãos cansadas sobre a mesa de trabalho.
Não me ocorre qualquer palavra escrever. A noite acende-se pelas
paredes, abro a janela e um rumor de mar chega até mim.
Os roncos dos petroleiros no porto, o zumbido laminar dum insecto. Apoio-me
ao parapeito e começo a esmigalhar as formigas que passam.
Que horas serão no tremer inquieto do coração?
Uma ave nocturna levantou voo, por entre as palmeiras, e noite tornou-se
mais escura. Incompreensível, distante desta janela.
O silêncio abate-se também sobre o rosto. Sinto-o quente no lado de dentro da pele.
Gostava de falar em voz alta comigo mesmo, mas tenho medo.
(…)
Al Berto
in, DIÁRIOS
Assírio & Alvim
2012
Lembro-me de quando pensava que a lua era de açúcar. Sentado
Nos degraus de cimento à entrada da casa, olho a roupa estendida
sobre a relva, os hibiscos vermelhos tremiam no incêndio do crepúsculo.
Ficava muito quieto, tempos em fim, à espera que a noite descesse e
Lentamente escorregasse pela superfície das coisas, e como ilusionista
Fizesse tudo desaparecer.
Então erguia os olhos para o percurso vagaroso dos astros e sentia-me
Ficar adulto.
Crescia dentro e fora de mim. Amanhã seria o último dia que jogaria ao berlinde.
(… É tudo tão triste, a noite, o dia, as horas, estas horas da noite com os
olhos postos no mar, e nada acontece, nada…)
(…)
Silêncios, silêncios de todos os géneros circulam no meu sangue.
Silêncios inexplicáveis, silêncios que vêm dalgum lado desconhecido
do meu corpo, do sul muito ao sul da memória. E as moscas voam
em volta do candeeiro, desesperadamente. O silêncio mais constrangedor
emana-se delas, do ruído surdo das asas cortando o ar.
Ouço-me agora atentamente, as mãos cansadas sobre a mesa de trabalho.
Não me ocorre qualquer palavra escrever. A noite acende-se pelas
paredes, abro a janela e um rumor de mar chega até mim.
Os roncos dos petroleiros no porto, o zumbido laminar dum insecto. Apoio-me
ao parapeito e começo a esmigalhar as formigas que passam.
Que horas serão no tremer inquieto do coração?
Uma ave nocturna levantou voo, por entre as palmeiras, e noite tornou-se
mais escura. Incompreensível, distante desta janela.
O silêncio abate-se também sobre o rosto. Sinto-o quente no lado de dentro da pele.
Gostava de falar em voz alta comigo mesmo, mas tenho medo.
(…)
Al Berto
in, DIÁRIOS
Assírio & Alvim
2012
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
E por vezes
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
David Mourão Ferreira
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
David Mourão Ferreira
Espaço Preenchido
Espaço Preenchido
Somos todos de aqui. Basta-nos a pátria
que uma tarde de domingo nos consente
entre folhas de outono e frases de abandono
E abrem-se-nos ruas
para ir a sítios demasiado precisos
quando um sítio só se encontra
ao fim de todas as ruas e de todos os rios
Somos todos da raça dos mortos
ou vivos mais além
Mensagens de outra pátria não as traz
arauto algum que o nosso tempo vestisse
O que é preciso é dar lugar
aos pássaros nas ruas da cidade
Ruy Belo
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Os símbolos do tempo
Estamos em crise perante a crise.
Docemente aterrados, alienados estupidamente descomprometidos e no entanto,pagando minuto a minuto os compromissos, colaborando, mastigando, aceitando antecipadamente os nossos cadáveres , discutindo o sexo dos anjos e exemplares que todos nós somos.
Esvaziando os bolsos e o prato e a alma de alguns, para nos enchermos até à congestão e ao enfarte, ou andarmos carregados de objectos que são o preço do sangue dos outros, que são o preço da liberdade dos outros.
Este ano morre, outro virá, igual, melhor, pior, terrível, este horror contínuo de ser-se humano, enquanto o ser-se humano é pouco, um pouco mais apenas que existir-se à sombra do que nos rouba a liberdade clara de sermos nós e o amor, sermos nós,
sem ódio.
Vai-te como os outros, ano que terminas, outro virá, cheio de morte, e vida, feito de tudo que nos cria mais tristes e mais velhos, quando somos velhos, raivosos,e mais velhos quando somos jovens.
Vai-te, e que vá contigo o fétido clamor de um ano mais, e que outro venha e traga ò nada, nada, nada...
Que não seja só o tempo que se esvai neste sonhar da vida um modo de viver-se dentro de nós e em todos.
mdavide
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Viver
"Viver é um ato que não premeditei. Brotei das trevas. Eu só sou válida para mim mesma. Tenho que viver aos poucos, não dá para viver tudo de uma vez. Nos braços de alguém eu morro toda. Eu me transfiguro em energia que tem dentro dela o atômico nuclear. Sou o resultado de ter ouvido uma voz quente no passado e de ter descido do trem quase antes dele parar — a pressa é inimiga da perfeição e foi assim que corri para a cidade perdendo logo a estação e a nova partida do trem e seu momento privilegiado que desperta espanto tão dolorido que é o apito do trem, que é adeus."
Clarice Lispector in 'Um Sopro de Vida'
Clarice Lispector in 'Um Sopro de Vida'
O novo homem
O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não-objecto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como for
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
«Nove meses, eu?
Nem nove minutos.»
Quem já concebeu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exacto,
medido, bem posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afecto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio,
e, per omnia secula,
livre, papagaio, sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.
Carlos Drummond de Andrade, in 'Versiprosa'
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Janeiro
É esta a completude dos dias
Quando se reúnem sobre a cidade
Os sossegos da nossa idade já meiga.
São estas as palavras que ficam
Desde o interior do nosso mais antigo nome.
É o inverno aberto de janeiro
Com as árvores despidas e o frio azul,
É o ano que começa no tempo que é nada,
Os bolsos que se enchem de mãos,
As casas que parecem mais juntas.
Por esta altura estarão a nascer
As horas mais felizes das nossas vidas
- bebemos chá escutando o lume
E amanhã será um dia a menos,
Um outro som acrescentando à voz,
Um abraço fechando-se até ao amor.
Vasco gato
O Constante Diálogo
Há tantos diálogos
Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado
Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as ideias
o sonho
o passado
o mais que futuro
Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio.
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.
Carlos Drummond de Andrade, in 'Discurso da Primavera'
Notas para o diário
deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Al-Berto
Horto de Incêndio
Assírio & Alvim
3ª edição - Dezembro 2000
O Amor
Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos
,e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.
Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência? Ou
impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão subtil da vida?
Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
connosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.
Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta. Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus.
in Cartografia de Emoções (2001)
Edições D. Quixote
nuno judice
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