quarta-feira, 31 de outubro de 2012

é no silêncio

é no silêncio
que melhor ludribio a morte
 
             não
já não me prendo a nada
mantenho-me suspenso neste fim de século
reaprendo os dias para a eternidade
porque onde termina o corpo deve começar
outra coisa outro corpo
 
ouço o rumor do vento
            vai
         alma vai
até onde quiseres ir

Al Berto

Não me perguntes

Não me perguntes, porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.

Miguel Torga

Uma vez eu irei

“Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto...”

Textos extraídos do livro ''Aprendendo a viver'', Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.

Sossega,coração

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, silente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa - 2-8-1933

O sonho

(...)

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

De que são feitos os dias

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

Cecília Meireles
In Canções

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

NÃO ABRAS A PORTA, SE FOR O SUBLIME DIZ QUE NÃO ESTOU... M. A. Pina

Aos Domingos

Aos domingos, quando os sinos tocam
de manhã, o que neles se toca é a manhã,
e todas as manhãs que nessa manhã
se juntam, com os dias da infância que
nunca mais acabavam, as casas da aldeia
de portas abertas para quem passava,
as ruas de terra batida onde as carroças
traziam as coisas do campo, os cães que
corriam atrás delas, uma crença no sol
que parecia ter expulso todas as nuvens
do céu, e a eternidade desses domingos
que ficaram na memória, com o ressoar
dos sinos pelos campos para que todos
soubessem que era domingo, e não havia
domingo sem os sinos tocarem a lembrar,
a cada badalada, que os domingos não
são eternos, e que é preciso viver cada
domingo como se fosse o primeiro, para
que o toque dos sinos não dobre por
quem não sabe que é domingo.


               Nuno Júdice

domingo, 21 de outubro de 2012

Junto à água

 Os homens temem as longas viagens,
 os ladrões da estrada, as hospedarias
 e temem morrer em frios leitos
 e ter sepultura em terra estranha.
 Por isso os seus passos os levam 
de regresso a casa, às veredas da infância, 
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

  Quantas vezes em
 desolados quartos de hotel 
esperei em vão que me batesses à porta, 
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!

 E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
 sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
 e no meio das multidões dos aeroportos.
 Agora só quero dormir um sono sem olhos

 e sem escuridão, sob um telhado por fim.
 À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
 e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

 Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
 Anoitece em todas as cidades do mundo, 
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
 onde o meu coração, falando, vagueia. 

 Manuel António Pina

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Ai,quem me dera

Vinícius de Morais

Ai, quem me dera terminasse a espera
Retornasse o canto simples e sem fim
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim
Ai, quem me dera ver morrer a fera
Ver nascer o anjo, ver brotar a flor.
Ai, quem me dera uma manhã feliz.
Ai, quem me dera uma estação de amor
Ah, se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais
Ai, quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afim
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim
Ai, quem me dera ouvir o nunca-mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E, finda a espera, ouvir na primavera
Alguém chamar por mim.

À procura do vento num jardim d'agosto

À PROCURA DO VENTO NUM JARDIM D'AGOSTO
                                         atrium
(Excerto)
          hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço e escrevi: aqui está a imobilidade aquática do meu país, o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar. invade-me a vontade de permanecer aqui, para sempre, à janela, ou partir com as marés e jamais voltar...
          releio o que escrevi há doze anos, neste mesmo lugar: as canetas secaram, os lápis ficaram esquecidos não sei onde. as borrachas já não apagam a melancolia das palavras. a escrita que inventámos evadiu-se do corpo. o vazio devora-nos. onde estivemos este tempo todo? voltaremos a encontrar e a tocar nossos corpos?

não estás aqui mas vejo-te nítido quando uma pétala de bruma envolve a casa e adormece o desejo. um astro ininteligível e de órbita difícil guia-me, ilumina-te. pelas frestas dum espaço oco perscruto o eco de meu corpo, o silente medo de continuar vivo.
          sento-me no cimo de meu próprio lixo e sorrio. espero que cheguem outros dias com algum sonho, ou destino, mais feliz.
AL BERTO
In O Medo

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O Terramoto

O TERRAMOTO

[a uma pessoa intemporal]
 

querida joana, o terramoto apanhou pessoas que faziam amor,

pessoas que morriam de uma causa lenta e dolorosa,
pessoas que celebravam contratos com apertos de mão,
pessoas com instrumentos na terra fértil,
pessoas que faziam de conta, pessoas sem relógio.
os que faziam amor perpetuaram-no, os que morriam

viram a sua morte impedida por uma colectiva e mais bem aceite,

os que celebravam contratos perderam as mãos coladas,

os que trabalhavam na terra fértil foram soterrados,

os que faziam de conta procuraram cumprir uma promessa,

os que não tinham relógio escaparam ao tempo.

meu amor, sermos egoístas é tentar impedir que as coisas mudem,

sermos intensos é não respeitar causas e efeitos,
espero-te no meu futuro, ainda que ele não seja

o efeito directo de um presente que ainda treme muito.


Tiago Nené

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Pausa



"Não sei se quero
descansar por estar
realmente cansada ou se
quero descansar para
       desistir"



     Clarice Lispector

Na palma da tua mão


e na palma da tua mão
busco ternura
sem contar meses,
anos, dias,
sem saber dizer
se já te chorei
por inteiro
o suficiente
para não voltar
a perder-te


Vasco Gato,
RÁDIO PIRATA

... há uma cidade a rebentar na humidade vertiginosa da noite e um homem com olhar de açúcar encostado ao néon melancólico das esquinas espera o próximo shoot de heroína... há uma cidade por baixo da pele e uma casa de sangue coagulado na memória atravessada por canos rotos e um corpo pingando mágoas... há uma cidade de alarmes e um titl lancinante de flipper dentro do meu pulmão adolescente e uma dor de chuva fustigando o sexo adormecido no soalho do quarto de pensão... há uma cidade de visco e de esperma ressequido e uma pastilha elástica presa ao fundo dum copo... há um sorriso e um engate e um càmone e um arrebenta e uma boca de lodo aberta sobre o rio... há uma cidade de fome e lixo enquanto o ciúme escorrega das mãos dos amantes... há um dedo de lâminas usadas e um beco sem saída onde se enroscou um puto e um cão de febre... há uma cidade crescendo no grito e na gasolina no fogo nocturno da minha vertigem presa nas alturas de cimento armado onde coabitam sexos mergulhados em naftalina... há um osso branco que perfura a insónia e a madrugada e esta cidade de nojo e de fascínio... há uma navalha cortando o betão das avenidas e um pássaro de enxofre nas feridas duras dos cabelos... há uma cidade de estátuas desmanteladas contra o espelho dum bordel e a luz do teu olhar dentro duma janela antiga... há uma cidade que se escapa para fora da noite espia avança e mata... há uma cidade de trapos queimados e de vozes ardendo e uma toalha para limpar o sono dos poucos brinquedos... há uma alucinação furiosa que me incendeia a veia e revela teu rosto lívido que se suicida... há uma cidade de papel engordurado que eu amachuco com o pânico nos dentes e todo o meu corpo sangra... treme... e tem medo... e morre...
Al Berto
in O Medo
Assírio & Alvim

Invocação



por ti deitei o meu corpo ao mar
sem cuidar que a maré me esquecesse
por ti aprendi como as coisas se tocam
como o trigo entende o vento e a terra
   como amanhecem as crianças sobre as mães

por ti dormi no sobressalto dos vales
entre sossegos mudos e noites espessas
por ti toquei a gravidez das nuvens
toquei os filhos semeados no inverno
   toquei a mulher que espanta o frio

e imaginei que me ouvisses na distância
que me lembrasses a meio do mês branco
quando nos campos as pétalas escrevem
o teu nome quando a mão anuncia a ternura
   que é quando os meus olhos procuram os teus


Vasco Gato

Falas de Civilização

Falas de Civilização...

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
    
                        Alberto Caeiro

Viola Partida



Conheces a angústia, amigo, o modo como vagarosamente se infiltra até doer nos ossos como se o frio pela janela aberta do coração vazio. Conheces essa viagem que desemboca em portos de países longínquos, cidades de pedra sob céus de fim, ruas de solidão e morte que o sol nunca visita. E mesmo ao lado, os tubos recurvos da loucura, a o labirinto transparente por onde te moves sem peso, longe, muito longe, dos pés. Quando dói demais endoidece-se, é uma forma de desviar a dor para os olhos que não nos pertencem. Como se num filme em que fossemos o lado de fora e por dentro a dor a cansar. Não sei se sabes do que falo (o mais que recebi de ti foi um silêncio em que acreditei me ouvisses). Escrevo dirigindo-me a ti. Escrevo depondo nas tuas mãos o último grão de vida que resta nesta terra triste.

                                                       Jorge Roque

Muito Pouca

a morte é uma coisa muito pouca
em nada se compara ao crescimento das constelações
a morte não respira nem se expande desde o centro
como fazem as estações desde o coração da terra


e assim eu sei que um sorriso é precioso
porque respira e alarga-se dentro dos olhos
e quando chega ao lugar em que a mão se abre
é já uma forma de sossego uma lua coberta de luar
um modo certo de trocar nomes em dias de excepção



 Vasco Gato

O Medo

O MEDO (1)

(1982)

        16 de maio
        esqueço-me  de  tudo,  por  isso escrevo. longe  do terror  ao
sismo inesperado das estrelas, escrevo com a certeza  de que tudo
o que escrevo se apagará do papel no momento da minha morte.
        o olhar fugiu pelos interstícios  dos objectos,  sinto-me como
se tivesse cegado por excesso de olhar o mundo. as palavras para
nomear o que é belo  definharam, raramente as escrevo, penso-as
só. aqui sentado, imobilizado sob a luz amarelenta do candeeiro,
continuo a desejar aquilo que nunca verei: a cintilação dum corpo
na cal, o sorriso dum rosto ardendo de suicídio em suicídio.
        ignoro o mundo e a noite que o envolve e devora. deixo
escoar o cansaço do corpo pela janela do quarto. fecho os olhos,
finjo o sono, e vou pelos lugares desabitados do meu corpo.

(...)

Al Berto
in O Medo

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A Liberdade

A liberdade


A liberdade que dos deuses eu esperava
Quebrou-se. As rosas que eu colhia,
Transparentes no tempo luminoso,
Morreram com o tempo que as abria.
sophia

São horas de voltar

São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto

a casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão

                                   em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.


                                                          Maria do Rosário Pedreiras

Sim

"Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas
 tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro
 da noite."

Clarice Lispector

Pecado Original



Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
 A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?
 Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
 Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
 Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
 Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

  Na alma, e com alguma verdade;
 Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão —
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
 Quantos Césares fui!
 Quantos Césares fui!
                                        Álvaro de Campos

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Ainda é cedo

Ainda é cedo para saber até onde mentiram os espelhos. o único consolo para a dor é saber que o desejo pode ser inesgotável. passo os dias absorvido com trabalhos caseiros. evito pensar em ti. cavo, planto, enxerto, podo, varo, limpo, cozinho, arrumo, lavo. é cada vez mais importante não me lembrar de mim. tem soprado vento glacial, fortíssimo, o que me desiquilibra imenso. enfio um gorro de lã até às orelhas, mas de pouco serve, o vento fustiga-me à velocidade do sangue. tremo o dia todo, como se tivesse alguma febre maligna. há três dias que não como e vivo, enroscado, junto à lareira. durmo no chão, mantenho o fogo aceso noite e dia. Al Berto

Deixei de ouvir-te

Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.


Maria do Rosário Pedreira

Oração

Deus meu eu vos espero, deus, vinde a mim, deus, brotai no meu peito, eu não sou nada, e a desgraça cai sobre minha cabeça e eu só sei usar palavras e as palavras são mentirosas, e eu continuo a sofrer, afinal o fio sobre a parede escura, deus, vinde a mim e não tenho alegria e minha vida é escura como a noite sem estrelas e deus, porque não existes dentro de mim? por que me fizeste separada de ti? deus, vinde a mim, eu não sou nada, eu sou menos que o pó e eu te espero todos os dias e todas as noites, ajudai-me, eu só tenho uma vida e essa vida escorre pelos meus dedos e encaminha-se para a morte serenamente e eu nada posso fazer e apenas assisto ao meu esgotamento em cada minuto que passa, sou só no mundo, quem me quer não me conhece, quem me conhece, me teme e eu sou pequena e pobre, não saberei que existi daqui a poucos anos, o que me resta para viver é pouco, e o que me resta para viver, no entanto, continuará intocado e inútil, porque não te apiedas de mim, que não sou nada? dai-me o que preciso, deus, dai-me o que preciso, e que não sei o que seja, minha desolação é funda como um poço e eu não me engano diante de mim e das pessoas, vinde a mim na desgraça e a desgraça é hoje, e a desgraça é sempre, beijo teus pés e o pó dos teus pés, quero me dissolver em lágrimas, das profundezas chamo por vós, vinde em meu auxílio que eu não tenho pecados, das profundezas chamo por vós, e nada responde e meu desespero é seco como as areias do deserto e minha perplexidade me sufoca, humilha-me, deus, esse orgulho de viver me amordaça, eu não sou nada, das profundezas chamo por vós, das profundezas chamo por vós, das profundezas chamo por vós, das profundezas chamo por vós...

Clarice Lispector

Na Eternidade

NA ETERNIDADE, NINGUÉM SE JULGA ETERNO.
Aqui nesta estada, penso que vou durar
além dos meus anos, que terei
outra chance de reaver o que não fiz.
Se perdoar é esquecer, me espera o pior:
serei esquecido quando redimido.


Não me perdoes, Deus. Não me esqueças.
O esquecimento jamais devolve seus reféns.


A claridade não se repete. A vida estala uma única  vez.

           Fabrício Carpinejar

Oferecer-te-ei

"Oferecer-te-ei
Pérolas de chuva
Vindas de países
Onde nunca chove"