quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Acordar viver

Acordar, viver

 
Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.
 
Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?
 
Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?
 
Ninguém responde, a vida é pétrea.


Carlos Drummond de Andrade

Camané -- este silêncio.wmv


Os Mortos





Não há mortos que morram tanto como os nossos.

Se um daqueles que nos pertence morre sete

ou setenta vezes no coração,

de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data,

e os que sempre viveram longe

morrem-nos metade ou um oitavo. E metade

de uma morte é quase nada, são casas

decimais no sofrimento. (Que digo? Milésimas, milésimas!)

  in "1"/
(Relógio D'Água Editores)
Gonçalo m tavares

José



 
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, proptesta?
e agora, José?
 
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
 
E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?
 
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
 
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!
 
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?


Carlos Drummond de Andrade

Spokes - Sun It Never Comes


Shelley

Shelley sem anjos e sem pureza

Shelley sem anjos e sem pureza,
aqui estou à tua espera nesta praça,
onde não há pombos mansos mas tristeza
e uma fonte por onde a água já não passa.
Das árvores não te falo pois estão nuas;
das casas não vale a pena porque estão
gastas pelo relógio e pelas luas
e pelos olhos de quem espera em vão.
De mim podia falar-te,mas não sei
que dizer-te desta história de maneira
que te pareça natural a minha voz.
Só sei que passo aqui a tarde inteira
tecendo estes versos e a noite
que te há-de trazer e nos há-de de deixar sós

Eugénio de Andrade
de As Mãos e os Frutos

Não passou


Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.
 
Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão- a tua mão, nossas mãos-
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?
 
Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado



Carlos Drummond de Andrade

Rodrigo Leão & Vox Ensemble*- "Ave Mundi" (In Memoriam)


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Manuel António Pina

O Sal da Língua homenageia o escritor, poeta e cronista Manuel António Pina, Prémio Camões de 2011,  que morreu esta tarde aos 68 anos. É triste a partida, apesar de grande o que nos deixa. Era cedo e seria sempre cedo para uma pessoa riquíssima como ele.

A casa do poeta é a poesia e a do poeta António Pina é imensa, mas hoje, em jeito de homenagem, deixo aqui a marca do cronista com um texto publicado no jornal diário JN com o título “Coisas sólidas e verdadeiras”, de 01-08-2012.

“O leitor que, à semelhança do de O’Neill, me pede a crónica que já traz engatilhada perdoar-me-á que, por uma vez, me deite no divã: estou farto de política! Eu sei que tudo é política, que, como diz Szymborska, “mesmo caminhando contra o vento/ dás passos políticos/ sobre solo político”. Mas estou farto de Passos Coelho, de Seguro, de Portas, de todos eles, da ‘troika’, do défice, da crise, de editoriais, de analistas!

Por isso, decidi hoje falar de algo realmente importante: nasceram três melros na trepadeira do muro do meu quintal. Já suspeitávamos que alguma coisa estivesse para acontecer pois os gatos ficavam horas na marquise olhando lá para fora, atentos à inusitada actividade junto do muro e fugindo em correria para o interior da casa sempre que o melro macho, sentindo as crias ameaçadas, descia sobre eles em voo picado.

Agora os nossos novos vizinhos já voam. Fico a vê-los ir e vir, procurando laboriosamente comida, os olhos negros e brilhantes pesquisando o vasto mundo do quintal ou, se calha de sentirem que os observamos, fitando-nos com curiosidade, a cabeça ligeiramente de lado, como se se perguntassem: “E estes, quem serão?“

Em breve nos abandonarão e procurarão outro território para a sua jovem e vibrante existência. E eu tenho uma certeza: não, nem tudo é política; a política é só uma ínfima parte, a menos sólida e menos veemente, daquilo a que chamamos impropriamente vida.”

Obrigada por nos dares, em palavras, a realidade que todos os dias nos trespassa o olhar.
Que carta leva a borboleta
às flores?
E qual será o endereço
da sua casa de Inverno?


Francisco Duarte Mangas

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Nesta Cidade

Nesta cidade, onde agora me sinto

mais estrangeiro do que um gato persa;

nesta Lisboa, onde mansos e lisos

os dias passam a ver as gaivotas,

e a cor dos jacarandás floridos

se mistura à do Tejo, em flor também;

só o Cesário vem ao meu encontro,

me faz companhia, quando de rua

em rua procuro um rumor distante
de passos ou aves, nem eu já sei bem.

Só ele ajusta a luz feliz dos seus

Versos aos olhos ardidos que são

os meus agora; só ele traz a sombra

de um verão muito antigo, com corvetas

lentas ainda no rio, e a música,

sumo do sol a escorrer da boca,

ó minha infância, meu jardim fechado,

ó meu poeta, talvez fosse contigo

que aprendi a pesar sílaba a sílaba

cada palavra, essas que tu levaste

quase sempre, como poucos mais,

à suprema perfeição da língua. Cesário Verde

Bertold Brecht

BERTOLD BRECHT

MENSAGEM DO POETA MORIBUNDO À JUVENTUDE

Vós, gente moça de futuros tempos e de
 Novas auroras sobre cidades que
 Ainda não foram construídas, também
 Vós, não-nascidos, ouvi
 A minha voz agora, de mim que morri
 E não em glória.
 Mas sim
 Como um camponês que não amanhou a leira e
 Como um carpinteiro que preguiçoso fugiu
 Do madeiramento aberto do telhado.

Assim desperdicei
 Eu o meu tempo, esbanjei os meus dias e agora
 Tenho que pedir-vos
 Que digais tudo o que não foi dito
 Que façais tudo o que não foi feito
 E que me esqueçais depressa, peço-vos, para que
 O meu mau exemplo não venha ainda também a perverter-vos.

Ai, para que me sentei eu
 À mesa dos estéreis, a comer do banquete
 Que eles não tinham cozinhado?
 Ai, porque misturei eu
 As minhas melhores palavras
 Ao seu pairar ocioso? Enquanto lá fora
 Andavam os ignorantes
 Sequiosos de aprender.

Ai, porque é que
 Não se erguem as minhas canções dos lugares onde
 As cidades se nutrem, onde se fazem os navios, porque é que
 Não sobem elas como fumo
 Das locomotivas dos comboios rápidos, fumo
 Que fica para trás no céu?

Porque a minha fala
 Aos úteis e criadores
 Lhes fica na boca como cinza e gaguejar de bêbedo.
 Nem uma palavra só
 Eu sei para vós, gerações dos tempos futuros
 Nem um gesto a apontar com dedo incerto
 Vos poderia dar, pois como
 Poderia apontar o caminho quem
 O não andou!

Assim só me resta, a mim que assim esbanjei
 A minha vida, apelar para vós
 Pra que não espreiteis nenhum mandamento saído
 Da nossa boca ociosa e que não aceiteis
 Nenhum conselho daqueles que
 Assim falharam, mas que só
 Decidais por vós próprios sobre o que
 Seja bom para vós e vos
 Ajude a amanhar a terra que nós deixámos decair
 E a fazer habitáveis as cidades
 Que nós empestámos.
 


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Aproxima-te

Aproxima-te, põe o ouvido na minha boca,
vou dizer-te um segredo,
está um homem com a noite deitado
nas areias, separado doutro homem


por um grito, ninguém o ouve,
o sol há tanto tempo apodrecido.
Não sei se espera a manhã
para partir ou vai ficar


com os cardos nas dunas, os olhos cheios
de ignorância e de bondade,
exposto
assim à calúnia, à ventania.

Como se fora um cão, menos ainda.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Há dias

Há Dias

Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.


Eugénio de Andrade
de Os lugares de Lume

Natureza morta

NATUREZA MORTA COM LOUVA-A-DEUS



Foi o último hóspede a sentar-se

no topo da mesa, já depois do martírio.

As asas magníficas haviam-lhe sido quebradas

por algum vento. Perdera o rumo

sobre a película cintilante de água

no riacho parado. Tal como poisou

junto de nós, com o belo corpo magro

arquejante, lembrava, ainda segundo o seu nome,

um santo mártir. Enquanto meditávamos,

a morte sobreveio, e a pequena criatura,

que viera partilhar a nossa mesa,

depois de ter sido banida das águas

foi banida da terra. Alguém pegou

no volúvel alado corpo morto

abandonado sem nexo na brancura da toalha

- que maculava -

e o atirou para qualquer arbusto raro

que o poeta ainda pôde fotografar.



FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

ANIMAL ANIMAL

um bestiário poético

Um dizer ainda puro

Um dizer ainda puro



imagino que sobre nós virá um céu

de espuma e que, de sol em sol,

uma nova língua nos fará dizer

o que a poeira da nossa boca adiada

soterrou já para lá da mão possível

onde cinzentos abandonamos a flor.



dizes: põe nos meus os teus dedos

e passemos os séculos sem rosto,

apaguemos de nossas casas o barulho

do tempo que ardeu sem luz.

sim, cria comigo esse silêncio

que nos faz nus e em nós acende

o lume das árvores de fruto.



diz-me que há ainda versos por escrever,

que sobra no mundo um dizer ainda puro.
Vasco gato

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Coisas que não há



Coisas que não há que há



Uma coisa que me põe triste

é que não exista o que não existe.

(Se é que não existe, e isto é que existe!)

Há tantas coisas bonitas que não há:

coisas que não há, gente que não há,

bichos que já houve e já não há,

livros por ler, coisas por ver,

feitos desfeitos, outros feitos por fazer,

pessoas tão boas ainda por nascer

e outras que morreram há tanto tempo!

Tantas lembranças de que não me lembro,

sítios que não sei, invenções que não invento,

gente de vidro e de vento, países por achar,

paisagens, plantas, jardins de ar,

tudo o que eu nem posso imaginar

porque se o imaginasse já existia

embora num sítio onde só eu ia...



Manuel António Pina

Visões





Procura guardá-las, Poeta,

por poucas que sejam de guardar,

do teu amar as visões.

Coloca-as no meio ocultas nas tuas frases.

Procura detê-las, Poeta,

quando em tua cabeça elas despertam,

de noite ou na luz crua do meio-dia.





Konstantinos Kavafis, poeta grego

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Instante





Que faria eu sem este mundo sem rosto sem questões

Quando o ser só dura um instante onde cada instante

Se deita sobre o vazio dentro do esquecimento de ter sido

Sem esta onda onde por fim

Corpo e sombra juntos se dissipam

Que faria eu sem este silêncio abismo de murmúrios

Arquejando furiosos em direcção ao socorro em direcção ao amor

Sem este céu que se eleva

Sobre o pó dos seus lastros

Que faria eu eu faria como ontem como hoje

Olhando para a minha janela vendo se não serei o único

A errar e a mudar distante de toda a vida

preso num espaço marionete

Sem voz entre as vozes

Que se fecham comigo.





Samuel Beckett

Junto ao Retrato

Junto ao Retrato



Era vermelha a rosa

que a minha mulher cortou para pôr junto ao retrato

de minha mãe, que fazia anos ontem.

era de um fulgor surdo e recatado,

a implodir tantas coisas já sem nome

para o interior macio das pétalas.



"Pus uma rosa do jardim junto ao retrato

da tua mãe", disse ela então ao telefone,

"uma rosa vermelha muito bonita", acrescentou

com uma leve sombra na voz e era sombria

a rosa, mesmo ao telefone, por ser o dia

dos seus anos. e era sombrio recordá-la.



Uma flor pode ser de uma obscura incandescência

junto de alguém. prende-se a delicados filamentos da memória

como a cabelos enredados. era sombria a rosa

sobre a cabeça branca, o olhar bondoso, as feições plácidas,

o que de minha mãe não se desfigorou

e a rosa iluminava devagar,

junto ao retrato.



Vasco Graça Moura é poeta, tradutor e político. É considerado um nome central na poesia portuguesa. São dele importantes traduções de poetas mundiais tais como,Dante, Petrarca e Shakespeare.



in poemas com pessoas
Quetzal Editores, Lisboa, 1999