sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Bertold Brecht

BERTOLD BRECHT

MENSAGEM DO POETA MORIBUNDO À JUVENTUDE

Vós, gente moça de futuros tempos e de
 Novas auroras sobre cidades que
 Ainda não foram construídas, também
 Vós, não-nascidos, ouvi
 A minha voz agora, de mim que morri
 E não em glória.
 Mas sim
 Como um camponês que não amanhou a leira e
 Como um carpinteiro que preguiçoso fugiu
 Do madeiramento aberto do telhado.

Assim desperdicei
 Eu o meu tempo, esbanjei os meus dias e agora
 Tenho que pedir-vos
 Que digais tudo o que não foi dito
 Que façais tudo o que não foi feito
 E que me esqueçais depressa, peço-vos, para que
 O meu mau exemplo não venha ainda também a perverter-vos.

Ai, para que me sentei eu
 À mesa dos estéreis, a comer do banquete
 Que eles não tinham cozinhado?
 Ai, porque misturei eu
 As minhas melhores palavras
 Ao seu pairar ocioso? Enquanto lá fora
 Andavam os ignorantes
 Sequiosos de aprender.

Ai, porque é que
 Não se erguem as minhas canções dos lugares onde
 As cidades se nutrem, onde se fazem os navios, porque é que
 Não sobem elas como fumo
 Das locomotivas dos comboios rápidos, fumo
 Que fica para trás no céu?

Porque a minha fala
 Aos úteis e criadores
 Lhes fica na boca como cinza e gaguejar de bêbedo.
 Nem uma palavra só
 Eu sei para vós, gerações dos tempos futuros
 Nem um gesto a apontar com dedo incerto
 Vos poderia dar, pois como
 Poderia apontar o caminho quem
 O não andou!

Assim só me resta, a mim que assim esbanjei
 A minha vida, apelar para vós
 Pra que não espreiteis nenhum mandamento saído
 Da nossa boca ociosa e que não aceiteis
 Nenhum conselho daqueles que
 Assim falharam, mas que só
 Decidais por vós próprios sobre o que
 Seja bom para vós e vos
 Ajude a amanhar a terra que nós deixámos decair
 E a fazer habitáveis as cidades
 Que nós empestámos.
 


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