quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Acordar viver

Acordar, viver

 
Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.
 
Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?
 
Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?
 
Ninguém responde, a vida é pétrea.


Carlos Drummond de Andrade

Camané -- este silêncio.wmv


Os Mortos





Não há mortos que morram tanto como os nossos.

Se um daqueles que nos pertence morre sete

ou setenta vezes no coração,

de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data,

e os que sempre viveram longe

morrem-nos metade ou um oitavo. E metade

de uma morte é quase nada, são casas

decimais no sofrimento. (Que digo? Milésimas, milésimas!)

  in "1"/
(Relógio D'Água Editores)
Gonçalo m tavares

José



 
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, proptesta?
e agora, José?
 
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
 
E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?
 
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
 
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!
 
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?


Carlos Drummond de Andrade

Spokes - Sun It Never Comes


Shelley

Shelley sem anjos e sem pureza

Shelley sem anjos e sem pureza,
aqui estou à tua espera nesta praça,
onde não há pombos mansos mas tristeza
e uma fonte por onde a água já não passa.
Das árvores não te falo pois estão nuas;
das casas não vale a pena porque estão
gastas pelo relógio e pelas luas
e pelos olhos de quem espera em vão.
De mim podia falar-te,mas não sei
que dizer-te desta história de maneira
que te pareça natural a minha voz.
Só sei que passo aqui a tarde inteira
tecendo estes versos e a noite
que te há-de trazer e nos há-de de deixar sós

Eugénio de Andrade
de As Mãos e os Frutos

Não passou


Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.
 
Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão- a tua mão, nossas mãos-
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?
 
Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado



Carlos Drummond de Andrade

Rodrigo Leão & Vox Ensemble*- "Ave Mundi" (In Memoriam)


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Manuel António Pina

O Sal da Língua homenageia o escritor, poeta e cronista Manuel António Pina, Prémio Camões de 2011,  que morreu esta tarde aos 68 anos. É triste a partida, apesar de grande o que nos deixa. Era cedo e seria sempre cedo para uma pessoa riquíssima como ele.

A casa do poeta é a poesia e a do poeta António Pina é imensa, mas hoje, em jeito de homenagem, deixo aqui a marca do cronista com um texto publicado no jornal diário JN com o título “Coisas sólidas e verdadeiras”, de 01-08-2012.

“O leitor que, à semelhança do de O’Neill, me pede a crónica que já traz engatilhada perdoar-me-á que, por uma vez, me deite no divã: estou farto de política! Eu sei que tudo é política, que, como diz Szymborska, “mesmo caminhando contra o vento/ dás passos políticos/ sobre solo político”. Mas estou farto de Passos Coelho, de Seguro, de Portas, de todos eles, da ‘troika’, do défice, da crise, de editoriais, de analistas!

Por isso, decidi hoje falar de algo realmente importante: nasceram três melros na trepadeira do muro do meu quintal. Já suspeitávamos que alguma coisa estivesse para acontecer pois os gatos ficavam horas na marquise olhando lá para fora, atentos à inusitada actividade junto do muro e fugindo em correria para o interior da casa sempre que o melro macho, sentindo as crias ameaçadas, descia sobre eles em voo picado.

Agora os nossos novos vizinhos já voam. Fico a vê-los ir e vir, procurando laboriosamente comida, os olhos negros e brilhantes pesquisando o vasto mundo do quintal ou, se calha de sentirem que os observamos, fitando-nos com curiosidade, a cabeça ligeiramente de lado, como se se perguntassem: “E estes, quem serão?“

Em breve nos abandonarão e procurarão outro território para a sua jovem e vibrante existência. E eu tenho uma certeza: não, nem tudo é política; a política é só uma ínfima parte, a menos sólida e menos veemente, daquilo a que chamamos impropriamente vida.”

Obrigada por nos dares, em palavras, a realidade que todos os dias nos trespassa o olhar.
Que carta leva a borboleta
às flores?
E qual será o endereço
da sua casa de Inverno?


Francisco Duarte Mangas

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Nesta Cidade

Nesta cidade, onde agora me sinto

mais estrangeiro do que um gato persa;

nesta Lisboa, onde mansos e lisos

os dias passam a ver as gaivotas,

e a cor dos jacarandás floridos

se mistura à do Tejo, em flor também;

só o Cesário vem ao meu encontro,

me faz companhia, quando de rua

em rua procuro um rumor distante
de passos ou aves, nem eu já sei bem.

Só ele ajusta a luz feliz dos seus

Versos aos olhos ardidos que são

os meus agora; só ele traz a sombra

de um verão muito antigo, com corvetas

lentas ainda no rio, e a música,

sumo do sol a escorrer da boca,

ó minha infância, meu jardim fechado,

ó meu poeta, talvez fosse contigo

que aprendi a pesar sílaba a sílaba

cada palavra, essas que tu levaste

quase sempre, como poucos mais,

à suprema perfeição da língua. Cesário Verde

Bertold Brecht

BERTOLD BRECHT

MENSAGEM DO POETA MORIBUNDO À JUVENTUDE

Vós, gente moça de futuros tempos e de
 Novas auroras sobre cidades que
 Ainda não foram construídas, também
 Vós, não-nascidos, ouvi
 A minha voz agora, de mim que morri
 E não em glória.
 Mas sim
 Como um camponês que não amanhou a leira e
 Como um carpinteiro que preguiçoso fugiu
 Do madeiramento aberto do telhado.

Assim desperdicei
 Eu o meu tempo, esbanjei os meus dias e agora
 Tenho que pedir-vos
 Que digais tudo o que não foi dito
 Que façais tudo o que não foi feito
 E que me esqueçais depressa, peço-vos, para que
 O meu mau exemplo não venha ainda também a perverter-vos.

Ai, para que me sentei eu
 À mesa dos estéreis, a comer do banquete
 Que eles não tinham cozinhado?
 Ai, porque misturei eu
 As minhas melhores palavras
 Ao seu pairar ocioso? Enquanto lá fora
 Andavam os ignorantes
 Sequiosos de aprender.

Ai, porque é que
 Não se erguem as minhas canções dos lugares onde
 As cidades se nutrem, onde se fazem os navios, porque é que
 Não sobem elas como fumo
 Das locomotivas dos comboios rápidos, fumo
 Que fica para trás no céu?

Porque a minha fala
 Aos úteis e criadores
 Lhes fica na boca como cinza e gaguejar de bêbedo.
 Nem uma palavra só
 Eu sei para vós, gerações dos tempos futuros
 Nem um gesto a apontar com dedo incerto
 Vos poderia dar, pois como
 Poderia apontar o caminho quem
 O não andou!

Assim só me resta, a mim que assim esbanjei
 A minha vida, apelar para vós
 Pra que não espreiteis nenhum mandamento saído
 Da nossa boca ociosa e que não aceiteis
 Nenhum conselho daqueles que
 Assim falharam, mas que só
 Decidais por vós próprios sobre o que
 Seja bom para vós e vos
 Ajude a amanhar a terra que nós deixámos decair
 E a fazer habitáveis as cidades
 Que nós empestámos.
 


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Aproxima-te

Aproxima-te, põe o ouvido na minha boca,
vou dizer-te um segredo,
está um homem com a noite deitado
nas areias, separado doutro homem


por um grito, ninguém o ouve,
o sol há tanto tempo apodrecido.
Não sei se espera a manhã
para partir ou vai ficar


com os cardos nas dunas, os olhos cheios
de ignorância e de bondade,
exposto
assim à calúnia, à ventania.

Como se fora um cão, menos ainda.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Há dias

Há Dias

Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.


Eugénio de Andrade
de Os lugares de Lume

Natureza morta

NATUREZA MORTA COM LOUVA-A-DEUS



Foi o último hóspede a sentar-se

no topo da mesa, já depois do martírio.

As asas magníficas haviam-lhe sido quebradas

por algum vento. Perdera o rumo

sobre a película cintilante de água

no riacho parado. Tal como poisou

junto de nós, com o belo corpo magro

arquejante, lembrava, ainda segundo o seu nome,

um santo mártir. Enquanto meditávamos,

a morte sobreveio, e a pequena criatura,

que viera partilhar a nossa mesa,

depois de ter sido banida das águas

foi banida da terra. Alguém pegou

no volúvel alado corpo morto

abandonado sem nexo na brancura da toalha

- que maculava -

e o atirou para qualquer arbusto raro

que o poeta ainda pôde fotografar.



FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

ANIMAL ANIMAL

um bestiário poético

Um dizer ainda puro

Um dizer ainda puro



imagino que sobre nós virá um céu

de espuma e que, de sol em sol,

uma nova língua nos fará dizer

o que a poeira da nossa boca adiada

soterrou já para lá da mão possível

onde cinzentos abandonamos a flor.



dizes: põe nos meus os teus dedos

e passemos os séculos sem rosto,

apaguemos de nossas casas o barulho

do tempo que ardeu sem luz.

sim, cria comigo esse silêncio

que nos faz nus e em nós acende

o lume das árvores de fruto.



diz-me que há ainda versos por escrever,

que sobra no mundo um dizer ainda puro.
Vasco gato

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Coisas que não há



Coisas que não há que há



Uma coisa que me põe triste

é que não exista o que não existe.

(Se é que não existe, e isto é que existe!)

Há tantas coisas bonitas que não há:

coisas que não há, gente que não há,

bichos que já houve e já não há,

livros por ler, coisas por ver,

feitos desfeitos, outros feitos por fazer,

pessoas tão boas ainda por nascer

e outras que morreram há tanto tempo!

Tantas lembranças de que não me lembro,

sítios que não sei, invenções que não invento,

gente de vidro e de vento, países por achar,

paisagens, plantas, jardins de ar,

tudo o que eu nem posso imaginar

porque se o imaginasse já existia

embora num sítio onde só eu ia...



Manuel António Pina

Visões





Procura guardá-las, Poeta,

por poucas que sejam de guardar,

do teu amar as visões.

Coloca-as no meio ocultas nas tuas frases.

Procura detê-las, Poeta,

quando em tua cabeça elas despertam,

de noite ou na luz crua do meio-dia.





Konstantinos Kavafis, poeta grego

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Instante





Que faria eu sem este mundo sem rosto sem questões

Quando o ser só dura um instante onde cada instante

Se deita sobre o vazio dentro do esquecimento de ter sido

Sem esta onda onde por fim

Corpo e sombra juntos se dissipam

Que faria eu sem este silêncio abismo de murmúrios

Arquejando furiosos em direcção ao socorro em direcção ao amor

Sem este céu que se eleva

Sobre o pó dos seus lastros

Que faria eu eu faria como ontem como hoje

Olhando para a minha janela vendo se não serei o único

A errar e a mudar distante de toda a vida

preso num espaço marionete

Sem voz entre as vozes

Que se fecham comigo.





Samuel Beckett

Junto ao Retrato

Junto ao Retrato



Era vermelha a rosa

que a minha mulher cortou para pôr junto ao retrato

de minha mãe, que fazia anos ontem.

era de um fulgor surdo e recatado,

a implodir tantas coisas já sem nome

para o interior macio das pétalas.



"Pus uma rosa do jardim junto ao retrato

da tua mãe", disse ela então ao telefone,

"uma rosa vermelha muito bonita", acrescentou

com uma leve sombra na voz e era sombria

a rosa, mesmo ao telefone, por ser o dia

dos seus anos. e era sombrio recordá-la.



Uma flor pode ser de uma obscura incandescência

junto de alguém. prende-se a delicados filamentos da memória

como a cabelos enredados. era sombria a rosa

sobre a cabeça branca, o olhar bondoso, as feições plácidas,

o que de minha mãe não se desfigorou

e a rosa iluminava devagar,

junto ao retrato.



Vasco Graça Moura é poeta, tradutor e político. É considerado um nome central na poesia portuguesa. São dele importantes traduções de poetas mundiais tais como,Dante, Petrarca e Shakespeare.



in poemas com pessoas
Quetzal Editores, Lisboa, 1999

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A tarde despedaçou-se

A tarde despedaçou-se
e nunca houve outro anseio
senão esta claridade sem sol,
a lenta supressão de uma morada.
Espiamos as naves que se soletram
a ouvido nenhum,
tocando um do outro
os dedos mais
sinceros.
Estamos prontos para singrar
na noite do nosso
desassossego.

Vasco Gato in Napule, Tea for One, 2011

Noturno

Noturno

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!

Antero de Quental

Quero acabar entre rosas


  Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância.
  Os crisântemos de depois, desfolhei-os a frio.
  Falem pouco, devagar,
  Que eu não oiça, sobretudo com o pensamento.
  O que quis? Tenho as mãos vazias,
  Crispadas flebilmente sobre a colcha longínqua.
  O que pensei? Tenho a boca seca, abstracta.
  O que vivi? Era tão bom dormir!

Álvaro de Campos

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A minha alegria

A minha alegria é um aroma de tangerina nos dedos,
comer aos gomos a paisagem
e limpar depois
a boca
à manga do espanto.
Tu puxas-me
e somos duas crianças
          num trilho de mata,
                   num banco de pedra,
                              num portão verde dividindo


o aqui e o ali.
Porque nós estamos aqui.
Aqui onde te entrego os meus bolsos,
e - repara - as tuas mãos cabem.


Nós estamos aqui.

Vasco Gato

A noite cedeu-nos o instinto

A noite cedeu-nos o instinto
para o fundo de nós
imigrou a ave a inquietação
Serve-nos a vida
mas não nos chega:
somos resina
de um tronco golpeado
para a luz nos abrimos
nos lábios
dessa incurável ferida
Na suprema felicidade
existe uma morte silenciada

Mia Couto
(Moçambique- 1955)

Se recordo quem fui

Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é um presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.
26-5-1930

Fernando Pessoa
Demissão

Este mundo não presta,venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão:sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos se dependentes.

José Saramago

Tudo quanto sonhei

Tudo quanto sonhei tenho perdido
Antes de o ter.
Um verso ao menos fique do inobtido,
Música de perder.
Pobre criança a quem não deram nada,
Choras? E em vão.
Como tu choro à beira da erma estrada.
Perdi o coração.
A ti talvez, que não te tens dado,
Daria enfim...
A mim... Sei eu que duro e inato fado
Me espera a mim?

Fernando Pessoa
Poesias Inéditas (1919-1930)

Chama-se liberdade

Chama-se liberdade o bem que sentes,
 Águia que pairas sobre as serranias;
 Chamam-se tiranias
 Os acenos que o mundo
 Cá de baixo te faz;
 Não desças do teu céu de solidão,
 Pomba da verdadeira paz,
 Imagem de nenhuma servidão!

Miguel Torga
 In: Antologia Poética

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Recado

 
 
ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
 
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
 
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me
 
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
 
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço.

Al Berto

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A chave do campo

A chave do campo está na mão das mulheres
que o lavraram, desfazendo os nós do inverno
com a exactidão da pá. Vi estas mulheres no
grande caminho da História, perdendo as suas
vidas em cada nova colheita. O sol tisnou
a sua pele; o frio enrugou os seus rostos. À
noite, quando o vento batia nas janelas
de madeira, os seus olhos atravessavam
a treva e perdiam-se em destinos que
não conheciam, como se tivessem outra
saída. Ouvi as suas queixas no murmúrio
das árvores que as abrigaram; e vi os
seus corpos deitados nas igrejas, sem
ninguém que os velasse, a caminho da vala
comum. Amei-as, sem que o soubessem;
e ouço o ruído das pás na terra, quando os
seus rostos me atravessam a memória,
e o inverno cai sobre a lama dos campos.


Nuno Júdice

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Começo a conhecer-me

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

Álvaro de Campos
heterônimo de Fernando Pessoa

Ao longo da muralha

Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição
 
Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor

 
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita


Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

Mário Cesariny

Se queres sentir a felicidade de amar

Se queres sentir a felicidade de amar,
esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo
Porque os corpos se entendem,
mas as almas não.

Manuel Bandeira

Um Poema



Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...


Miguel Torga,
de 'Diário XIII'

Irmão, nada é eterno

Irmão,nada é eterno, nada sobrevive.
 Recorda isto, e alegra-te.

A nossa vida
 não é só a carga dos anos.
 A nossa vereda
 não é só o caminho interminável.
 Nenhum poeta tem o dever
 de cantar a antiga canção.
 A flor murcha e morre;
 mas aquele que a leva
 não deve chorá-la sempre...
 Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Chegará um silêncio absoluto,
 e, então, a música será perfeita.
 A vida inclinar-se-á ao poente
 para afogar-se em sombras doiradas.
 O amor há-de ser chamado do seu jogo
 para beber o sofrimento
 e subir ao céu das lágrimas ...
 Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Apanhemos, no ar, as nossas flores,
 não no-las arrebate o vento que passa.
 Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos
 roubando beijos que murchariam
 se os esquecêssemos.

É ânsia a nossa vida
 e força o nosso desejo,
 porque o tempo toca a finados.
 Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
 parti-las e atirá-las ao chão.
 Passam rápidas as horas,
 com os sonhos debaixo do manto.
 A vida, infindável para o trabalho
 e para o fastio,
 dá-nos apenas um dia para o amor.
 Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Sabe-nos bem a beleza
 porque a sua dança volúvel
 é o ritmo das nossas vidas.
 Gostamos da sabedoria
 porque não temos sempre de a acabar.
 No eterno tudo está feito e concluído,
 mas as flores da ilusão terrena
 são eternamente frescas,
 por causa da morte.
 Irmão, recorda isto, e alegra-te.


Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"

A ferida por baixo da cicatriz

A ferida por baixo da cicatriz
- quem cura?
Por vezes são estrelas que sobem
quando a água ocupa o espaço
e um brilho esquivo tropeça
no cansaço
do dia
No chão ainda morno
ardem pétalas sossegadamente
a há a melancolia de um pássaro

Na varanda esquecida
por trás de toda a magia da noite
(há tanta solidão em quem repara)
dura um homem que diz baixinho
assim quase para fora

A ferida por baixo da cicatriz
- quem cura?
vasco gato

O que me dói

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...
 
São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.
 
São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

Fernando Pessoa
5-9-1933

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revôlta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga

domingo, 4 de novembro de 2012

Tarde triste

 

É o Outono doente que começa.
Cada folha parece que tem pressa
De morrer.
Madura e fatigada, a natureza,
Roída por não sei que súbita incerteza,
Até nos frutos quer apodrecer.
E há um desalento igual dentro de mim.
Uma renúncia assim
Calada e conformada.
Perdi o gosto verde de cantar,
A emoção vem à tona e degenera,
Infecunda, a negar
As muitas flores que dei na Primavera.

Miguel Torga,
 Diário XIV, 1.984

Não abras a porta

Não abras a porta,
 se for o sublime diz que não estou,
jã temos palavras de mais,sentimentos de mais

A glicínia não floriu este ano,
 antes floria à volta de
tudo o que resta de azul à nossa volta,
Envelheceu, anima-a só o desejo
de voltar a casa, de ser uma casa.

 Manuel A.Pina

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

é no silêncio

é no silêncio
que melhor ludribio a morte
 
             não
já não me prendo a nada
mantenho-me suspenso neste fim de século
reaprendo os dias para a eternidade
porque onde termina o corpo deve começar
outra coisa outro corpo
 
ouço o rumor do vento
            vai
         alma vai
até onde quiseres ir

Al Berto

Não me perguntes

Não me perguntes, porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.

Miguel Torga

Uma vez eu irei

“Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto...”

Textos extraídos do livro ''Aprendendo a viver'', Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.

Sossega,coração

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, silente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa - 2-8-1933

O sonho

(...)

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

De que são feitos os dias

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

Cecília Meireles
In Canções

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

NÃO ABRAS A PORTA, SE FOR O SUBLIME DIZ QUE NÃO ESTOU... M. A. Pina

Aos Domingos

Aos domingos, quando os sinos tocam
de manhã, o que neles se toca é a manhã,
e todas as manhãs que nessa manhã
se juntam, com os dias da infância que
nunca mais acabavam, as casas da aldeia
de portas abertas para quem passava,
as ruas de terra batida onde as carroças
traziam as coisas do campo, os cães que
corriam atrás delas, uma crença no sol
que parecia ter expulso todas as nuvens
do céu, e a eternidade desses domingos
que ficaram na memória, com o ressoar
dos sinos pelos campos para que todos
soubessem que era domingo, e não havia
domingo sem os sinos tocarem a lembrar,
a cada badalada, que os domingos não
são eternos, e que é preciso viver cada
domingo como se fosse o primeiro, para
que o toque dos sinos não dobre por
quem não sabe que é domingo.


               Nuno Júdice

domingo, 21 de outubro de 2012

Junto à água

 Os homens temem as longas viagens,
 os ladrões da estrada, as hospedarias
 e temem morrer em frios leitos
 e ter sepultura em terra estranha.
 Por isso os seus passos os levam 
de regresso a casa, às veredas da infância, 
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

  Quantas vezes em
 desolados quartos de hotel 
esperei em vão que me batesses à porta, 
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!

 E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
 sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
 e no meio das multidões dos aeroportos.
 Agora só quero dormir um sono sem olhos

 e sem escuridão, sob um telhado por fim.
 À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
 e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

 Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
 Anoitece em todas as cidades do mundo, 
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
 onde o meu coração, falando, vagueia. 

 Manuel António Pina

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Ai,quem me dera

Vinícius de Morais

Ai, quem me dera terminasse a espera
Retornasse o canto simples e sem fim
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim
Ai, quem me dera ver morrer a fera
Ver nascer o anjo, ver brotar a flor.
Ai, quem me dera uma manhã feliz.
Ai, quem me dera uma estação de amor
Ah, se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais
Ai, quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afim
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim
Ai, quem me dera ouvir o nunca-mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E, finda a espera, ouvir na primavera
Alguém chamar por mim.

À procura do vento num jardim d'agosto

À PROCURA DO VENTO NUM JARDIM D'AGOSTO
                                         atrium
(Excerto)
          hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço e escrevi: aqui está a imobilidade aquática do meu país, o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar. invade-me a vontade de permanecer aqui, para sempre, à janela, ou partir com as marés e jamais voltar...
          releio o que escrevi há doze anos, neste mesmo lugar: as canetas secaram, os lápis ficaram esquecidos não sei onde. as borrachas já não apagam a melancolia das palavras. a escrita que inventámos evadiu-se do corpo. o vazio devora-nos. onde estivemos este tempo todo? voltaremos a encontrar e a tocar nossos corpos?

não estás aqui mas vejo-te nítido quando uma pétala de bruma envolve a casa e adormece o desejo. um astro ininteligível e de órbita difícil guia-me, ilumina-te. pelas frestas dum espaço oco perscruto o eco de meu corpo, o silente medo de continuar vivo.
          sento-me no cimo de meu próprio lixo e sorrio. espero que cheguem outros dias com algum sonho, ou destino, mais feliz.
AL BERTO
In O Medo

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O Terramoto

O TERRAMOTO

[a uma pessoa intemporal]
 

querida joana, o terramoto apanhou pessoas que faziam amor,

pessoas que morriam de uma causa lenta e dolorosa,
pessoas que celebravam contratos com apertos de mão,
pessoas com instrumentos na terra fértil,
pessoas que faziam de conta, pessoas sem relógio.
os que faziam amor perpetuaram-no, os que morriam

viram a sua morte impedida por uma colectiva e mais bem aceite,

os que celebravam contratos perderam as mãos coladas,

os que trabalhavam na terra fértil foram soterrados,

os que faziam de conta procuraram cumprir uma promessa,

os que não tinham relógio escaparam ao tempo.

meu amor, sermos egoístas é tentar impedir que as coisas mudem,

sermos intensos é não respeitar causas e efeitos,
espero-te no meu futuro, ainda que ele não seja

o efeito directo de um presente que ainda treme muito.


Tiago Nené

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Pausa



"Não sei se quero
descansar por estar
realmente cansada ou se
quero descansar para
       desistir"



     Clarice Lispector

Na palma da tua mão


e na palma da tua mão
busco ternura
sem contar meses,
anos, dias,
sem saber dizer
se já te chorei
por inteiro
o suficiente
para não voltar
a perder-te


Vasco Gato,
RÁDIO PIRATA

... há uma cidade a rebentar na humidade vertiginosa da noite e um homem com olhar de açúcar encostado ao néon melancólico das esquinas espera o próximo shoot de heroína... há uma cidade por baixo da pele e uma casa de sangue coagulado na memória atravessada por canos rotos e um corpo pingando mágoas... há uma cidade de alarmes e um titl lancinante de flipper dentro do meu pulmão adolescente e uma dor de chuva fustigando o sexo adormecido no soalho do quarto de pensão... há uma cidade de visco e de esperma ressequido e uma pastilha elástica presa ao fundo dum copo... há um sorriso e um engate e um càmone e um arrebenta e uma boca de lodo aberta sobre o rio... há uma cidade de fome e lixo enquanto o ciúme escorrega das mãos dos amantes... há um dedo de lâminas usadas e um beco sem saída onde se enroscou um puto e um cão de febre... há uma cidade crescendo no grito e na gasolina no fogo nocturno da minha vertigem presa nas alturas de cimento armado onde coabitam sexos mergulhados em naftalina... há um osso branco que perfura a insónia e a madrugada e esta cidade de nojo e de fascínio... há uma navalha cortando o betão das avenidas e um pássaro de enxofre nas feridas duras dos cabelos... há uma cidade de estátuas desmanteladas contra o espelho dum bordel e a luz do teu olhar dentro duma janela antiga... há uma cidade que se escapa para fora da noite espia avança e mata... há uma cidade de trapos queimados e de vozes ardendo e uma toalha para limpar o sono dos poucos brinquedos... há uma alucinação furiosa que me incendeia a veia e revela teu rosto lívido que se suicida... há uma cidade de papel engordurado que eu amachuco com o pânico nos dentes e todo o meu corpo sangra... treme... e tem medo... e morre...
Al Berto
in O Medo
Assírio & Alvim

Invocação



por ti deitei o meu corpo ao mar
sem cuidar que a maré me esquecesse
por ti aprendi como as coisas se tocam
como o trigo entende o vento e a terra
   como amanhecem as crianças sobre as mães

por ti dormi no sobressalto dos vales
entre sossegos mudos e noites espessas
por ti toquei a gravidez das nuvens
toquei os filhos semeados no inverno
   toquei a mulher que espanta o frio

e imaginei que me ouvisses na distância
que me lembrasses a meio do mês branco
quando nos campos as pétalas escrevem
o teu nome quando a mão anuncia a ternura
   que é quando os meus olhos procuram os teus


Vasco Gato

Falas de Civilização

Falas de Civilização...

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
    
                        Alberto Caeiro

Viola Partida



Conheces a angústia, amigo, o modo como vagarosamente se infiltra até doer nos ossos como se o frio pela janela aberta do coração vazio. Conheces essa viagem que desemboca em portos de países longínquos, cidades de pedra sob céus de fim, ruas de solidão e morte que o sol nunca visita. E mesmo ao lado, os tubos recurvos da loucura, a o labirinto transparente por onde te moves sem peso, longe, muito longe, dos pés. Quando dói demais endoidece-se, é uma forma de desviar a dor para os olhos que não nos pertencem. Como se num filme em que fossemos o lado de fora e por dentro a dor a cansar. Não sei se sabes do que falo (o mais que recebi de ti foi um silêncio em que acreditei me ouvisses). Escrevo dirigindo-me a ti. Escrevo depondo nas tuas mãos o último grão de vida que resta nesta terra triste.

                                                       Jorge Roque

Muito Pouca

a morte é uma coisa muito pouca
em nada se compara ao crescimento das constelações
a morte não respira nem se expande desde o centro
como fazem as estações desde o coração da terra


e assim eu sei que um sorriso é precioso
porque respira e alarga-se dentro dos olhos
e quando chega ao lugar em que a mão se abre
é já uma forma de sossego uma lua coberta de luar
um modo certo de trocar nomes em dias de excepção



 Vasco Gato

O Medo

O MEDO (1)

(1982)

        16 de maio
        esqueço-me  de  tudo,  por  isso escrevo. longe  do terror  ao
sismo inesperado das estrelas, escrevo com a certeza  de que tudo
o que escrevo se apagará do papel no momento da minha morte.
        o olhar fugiu pelos interstícios  dos objectos,  sinto-me como
se tivesse cegado por excesso de olhar o mundo. as palavras para
nomear o que é belo  definharam, raramente as escrevo, penso-as
só. aqui sentado, imobilizado sob a luz amarelenta do candeeiro,
continuo a desejar aquilo que nunca verei: a cintilação dum corpo
na cal, o sorriso dum rosto ardendo de suicídio em suicídio.
        ignoro o mundo e a noite que o envolve e devora. deixo
escoar o cansaço do corpo pela janela do quarto. fecho os olhos,
finjo o sono, e vou pelos lugares desabitados do meu corpo.

(...)

Al Berto
in O Medo

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A Liberdade

A liberdade


A liberdade que dos deuses eu esperava
Quebrou-se. As rosas que eu colhia,
Transparentes no tempo luminoso,
Morreram com o tempo que as abria.
sophia

São horas de voltar

São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto

a casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão

                                   em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.


                                                          Maria do Rosário Pedreiras

Sim

"Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas
 tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro
 da noite."

Clarice Lispector

Pecado Original



Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
 A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?
 Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
 Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
 Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
 Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

  Na alma, e com alguma verdade;
 Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão —
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
 Quantos Césares fui!
 Quantos Césares fui!
                                        Álvaro de Campos

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Ainda é cedo

Ainda é cedo para saber até onde mentiram os espelhos. o único consolo para a dor é saber que o desejo pode ser inesgotável. passo os dias absorvido com trabalhos caseiros. evito pensar em ti. cavo, planto, enxerto, podo, varo, limpo, cozinho, arrumo, lavo. é cada vez mais importante não me lembrar de mim. tem soprado vento glacial, fortíssimo, o que me desiquilibra imenso. enfio um gorro de lã até às orelhas, mas de pouco serve, o vento fustiga-me à velocidade do sangue. tremo o dia todo, como se tivesse alguma febre maligna. há três dias que não como e vivo, enroscado, junto à lareira. durmo no chão, mantenho o fogo aceso noite e dia. Al Berto

Deixei de ouvir-te

Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.


Maria do Rosário Pedreira

Oração

Deus meu eu vos espero, deus, vinde a mim, deus, brotai no meu peito, eu não sou nada, e a desgraça cai sobre minha cabeça e eu só sei usar palavras e as palavras são mentirosas, e eu continuo a sofrer, afinal o fio sobre a parede escura, deus, vinde a mim e não tenho alegria e minha vida é escura como a noite sem estrelas e deus, porque não existes dentro de mim? por que me fizeste separada de ti? deus, vinde a mim, eu não sou nada, eu sou menos que o pó e eu te espero todos os dias e todas as noites, ajudai-me, eu só tenho uma vida e essa vida escorre pelos meus dedos e encaminha-se para a morte serenamente e eu nada posso fazer e apenas assisto ao meu esgotamento em cada minuto que passa, sou só no mundo, quem me quer não me conhece, quem me conhece, me teme e eu sou pequena e pobre, não saberei que existi daqui a poucos anos, o que me resta para viver é pouco, e o que me resta para viver, no entanto, continuará intocado e inútil, porque não te apiedas de mim, que não sou nada? dai-me o que preciso, deus, dai-me o que preciso, e que não sei o que seja, minha desolação é funda como um poço e eu não me engano diante de mim e das pessoas, vinde a mim na desgraça e a desgraça é hoje, e a desgraça é sempre, beijo teus pés e o pó dos teus pés, quero me dissolver em lágrimas, das profundezas chamo por vós, vinde em meu auxílio que eu não tenho pecados, das profundezas chamo por vós, e nada responde e meu desespero é seco como as areias do deserto e minha perplexidade me sufoca, humilha-me, deus, esse orgulho de viver me amordaça, eu não sou nada, das profundezas chamo por vós, das profundezas chamo por vós, das profundezas chamo por vós, das profundezas chamo por vós...

Clarice Lispector

Na Eternidade

NA ETERNIDADE, NINGUÉM SE JULGA ETERNO.
Aqui nesta estada, penso que vou durar
além dos meus anos, que terei
outra chance de reaver o que não fiz.
Se perdoar é esquecer, me espera o pior:
serei esquecido quando redimido.


Não me perdoes, Deus. Não me esqueças.
O esquecimento jamais devolve seus reféns.


A claridade não se repete. A vida estala uma única  vez.

           Fabrício Carpinejar

Oferecer-te-ei

"Oferecer-te-ei
Pérolas de chuva
Vindas de países
Onde nunca chove"

terça-feira, 25 de setembro de 2012

REINVENTANDO-ME


A Ricardo Ghelman


Como a ave mitológica,

cada dia renasço

das próprias cinzas.

Reinvento o calendário

para rea(s)cender a minha vida.

Velho dilema:

se cruzo os braços, fracasso;

se avanço o semáforo, desapareço.



Mas não sei se continuo

como Sísifo sem sua

doida roda-viva:;

ora pedra sobre os escombros

de mim mesmo,

ora aclive ressuscitado

em constante desafio.

Não resisto ao amanhã,

mas estou perdido no ontem

enquanto o presente

me sentencia e descaminha.

Enquanto não estendem a ponte
tento fazer a catarse

de um salto dialético impossível.

OCEANO

Junto do mar, que erguia gravemente
À trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,
 Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...
Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?
Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
 Um bramido, um queixume, e nada mais...

Antero de Quental

Sabedoria

 
 
 
 
«Para vencer a loucura ou uma inquietação tenaz, não há nada melhor do que imaginarmos o nosso próprio enterro. Método eficaz, ao alcance de todos. Para não termos de recorrer a ele demasiadas vezes por dia, convém experimentar esse benefício assim que acordamos. Ou então utilizá-lo apenas em momentos excepcionais, como o papa Inocêncio IX, que, tendo encomendado um quadro em que era representado no seu leito de morte, lhe lançava um olhar sempre que precisava de tomar uma decisão importante.»

 
E.M. Cioran

domingo, 23 de setembro de 2012

Eis que morreste

 Eis que morreste. Mortalmente triste
Divaga a flor da aurora entre os teus dedos
E o teu rosto ficou entre as estátuas
Velado até que o novo dia nasça.
Se nenhum amor pode ser perdido
Tu renascerás – mas quando?
Pode ser que primeiro o tempo gaste
A frágil substância do meu sono.

Sophia




sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Cidade



 Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu em ti estou fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.
 
Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sophia M.B.

A mosca do serviço de urgência

A mosca do serviço de urgência


A velha está sentada na sala de espera.
Chegou amparada pela filha, que a depositou ali
enquanto trata dos papéis. A aflição
deve ter sido tão súbita e imperiosa
que a velha vem descomposta,
não houve tempo para atender a pudores.
Perdeu algures um chinelo.

Está sentada, muito branca, e parece
mascar as dores com as gengivas nuas.

Tem a morte pousada na cara, sob a forma
de uma mosca insistente e de ar atarefado.
Não tem forças para a sacudir.
A mosca aproxima-se da boca, depois parece
interessar-se pelo nariz. Delicia-se
com o muco ao canto do olho, como a criança
que come a ocultas um gelado interdito.
É como se estivesse em casa e percorresse
os aposentos ao sabor dos afazeres.
Cansada do rosto, levanta voo
e vai pousar, desta feita, numa mão.
Mas breve volta atrás, como se se tivesse
esquecido ali de alguma coisa,
e demora-se um pouco a tentar lembrar o quê.

Esfrega uma na outra as patas dianteiras,
celebrando a vitória que logo virá.

A velha já nem se dá conta
desse penúltimo escárnio da morte.
Está visivelmente madura para ela,
pronta a entregar-lhe os destroços do corpo.

Consumada a posse daquele território,
a mosca vai no seu voo fortuito
em busca de mais carne a requerer.
Há dezenas de doentes na sala.
Apalpa-os um por um, como se faz aos figos,
para saber qual deve ser comido
em primeiro lugar.

O mais certo é que acabe – mais dia, menos dia –
por devorá-los todos. A.M. Pires Cabral

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Deus certamente

DEUS certamente,o diabo provavelmente

1
Odeio
quem me ama
e os que me procuram
de madrugada
não me acham

2
Se estou bem
é culpa de Deus
se estou mal
a culpa é minha

3
O que
tenho a dizer
grito-o
do alto dos telhados

4
Quem
muita sacha
muita acha
(a viúva
não sabe
da peúga)

5
Não é
com as pernas
que se fazem
as merdas
(é com a alma)


Adília Lopes
Dobra: Poesia Reunida
Assírio & Alvim, 2009

terça-feira, 18 de setembro de 2012

As pessoas sensíveis

         
 
  As pessoas sensíveis não são capazes
  De matar galinhas
  Porém são capazes
  De comer galinhas
  O dinheiro cheira a pobre e cheira
 À roupa do seu corpo
 Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão"
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Isso é tão vasto

Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
  Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma bênção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
 
Clarice Lispector
 

Um dia

Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei entre os teus braços.. … Um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela. Sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade. josé luís Peixoto

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão de bailar
as quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello breyner Andresen
Gasto
este momento
mágico
a olhar
para o fundo
das coisas
até ao limite
do espanto

Se alguém disser




se alguém disser que morri, avança até à varanda do céu,
escuta a noite e recolhe o meu corpo da espuma dos planetas.
não deixes que o meu rosto se dissolva nas tuas mãos,
insiste no meu nome até que o mar ascenda à tua boca.
e de luar em luar celebra o coração que fiz teu, mudamente,
como se o amor fosse sobreviver às veias paradas do sangue.

Vasco gato

Quando fores velha



Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

william butler yeats

Praça dos leões




Estou aqui à tua espera num café na Praça dos Leões


Combinei um encontro contigo pelo telefone


prometeste que desta vez não faltarias


Estou aqui à tua espera


as mãos suadas a testa suada não sei como controlar a minha ansiedade


Tenho combinado inúmeros encontros contigo


através de bilhetes postais ramos de violetas bombardeiros apaixonados


amanhã às quatorze horas no hall de entrada do Grande Hotel do Universo


nas retretes nos jardins nas margens do rio Douro


Estou aqui à tua espera


Aliás desde que me conheço que não faço outra coisa


senão estar à tua espera


Disseram-me que tinhas o nome e o corpo duma mulher




Jorge Sousa Braga

quarta-feira, 29 de agosto de 2012


  

Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
 pensava eu… como seriam felizes as mulheres
 à beira-mar debruçadas para luz caiada
 remendando o pano das velas espiando o mar
 e a longitude do amor embarcado

 por vezes 
uma gaivota pousava nas águas 
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
 os dias lentíssimos… sem ninguém 

 e nunca me disseram o nome daquele oceano
 esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas
 punha-me a olhar a risca do mar ao fundo da rua
 assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
 se espantasse com a minha solidão

 (anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
 coração, mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

 um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
 inclino-me de novo para o pano deste século
 recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz 
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade

 Al Berto

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Bebendo Ao Luar

Bebendo ao luar
Ergo entre as flores um copo de vinho
e convido o luar
Acabo também por convidar a minha sombra
Mas a lua não sabe beber
e a minha sombra não me consegue acompanhar
Companheiros de um instante– a lua a minha sombra e eu – vamos brindar à primavera.
Enquanto canto a lua vagueia
Enquanto danço a minha sombra desespera
Esqueçamos tudo enquanto estivermos a beber
Que cada um se afaste
quando o dia chegar
Na longínqua Via Láctea
mais cedo ou mais tarde
nos voltaremos a encontrar

Jorge de Sousa Braga

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Génesis

Génesis

De mim não falo mais :não quero nada.
De Deus não falo:não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.
•
Nem de existir,que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver,que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.
•
Por mais justiça ...-Ai quantos que eram novos
em vâo a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusâo dos povos!
•
Não há verdade:O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais,todos mentiram. 

 Jorge de Sena

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Poema Quase Epitáfio


 Violentamente só
desfeito em louco
 - nem um gato lunar
 te arranha um pouco

 Morreram-te na família
irmãos mais velhos
 Restam retratos de vidro
 e espelhos

Entre as fêmeas bendita
 não te quis
 As outras mataste
 (nem há sangue que te baste)

 O chão do teu país
deu-te água e uma raiz
 muitas pedras mas prisões

 - Senhor demónio dos sós
 Quando ele morrer
onde o pões?

Luísa Neto Jorge

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Dá-me a tua mão

Dá-me a tua mão,
 Deixa que a minha solidão
 prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
 nas noites estreladas,
 a ver os fantasmas a dançar na lua.

 Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.

 José Gomes Ferreira
«ESTÃO PODRES AS PALAVRAS....»

Estão podres as palavras - de passarem
por sórdidas mentiras de canalhas
que as usam ao revés como o carácter deles.
E podres de sonâmbulos os povos
ante a maldade à solta de que vivem
a paz quotidiana da injustiça.
Usá-las puras - como serão puras,
se caem no silêncio em que os mais puros
não sabem já onde a limpeza acaba
e a corrupção começa? Como serão puras
se logo a infâmia as cobre de seu cuspo?
Estão podres: e com elas apodrece o mundo
e se dissolve em lama a criação do homem
que só persiste em todos livremente
onde as palavras fiquem como torres
erguidas sexo de homens entre o céu e a terra.

Jorge de Sena

Inglória

Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.
 Quantos, se pensam, não se reconhecem
 Os que se conheceram!
 A cada hora se muda não só a hora
 Mas o que se crê nela, e a vida passa
Entre viver e ser.

Ricardo Reis

Feliz

Feliz é aquele que administra sabiamente a tristeza e aprende a repartí-la pelos dias

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Algumas reflexões sobre a mulher



 Elas são as mães:
 rompem do inferno, furam a treva,
 arrastando
 os seus mantos na poeira das estrelas.

 Animais sonâmbulos,
 dormem nos rios, na raiz do pão

. Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.
 Em segredo, escondem
 o latir lancinante dos seus cães.

 Nos olhos, o relâmpago
 negro do frio.

 Longamente bebem
 o silencio
 nas próprias mãos.

 O olhar
 desafia as aves:
 o seu voo é mais fundo.

 Sobre si se debruçam
 a escutar
 os passos do crepúsculo.

 Despem-se ao espelho
 para entrarem
 nas águas da sombra.

 É quando dançam que todos os caminhos
 levam ao mar.

 São elas que fabricam o mel,
 o aroma do luar,
 o branco da rosa.

 Quando o galo canta
 Desprendem-se
 para serem orvalho.

Eugénio de Andrade

O Silêncio

               O Silêncio

          Quando a ternura
 parece já do seu ofício fatigada,

 e o sono, a mais incerta barca,
             ainda demora,

 quando azuis irrompem
         os teus olhos

        e procuram
nos meus navegação segura,

 é que eu te falo das palavras
    desamparadas e desertas,

    pelo silêncio fascinadas

     Eugénio de Andrade

Vai mísero cavalo lazarento

Vai, mísero cavalo lazarento,
 Pastar longas campinas livremente;
 Não percas tempo, enquanto to consente
 De magros cães faminto ajuntamento.

 Esta sela, teu único ornamento,
 Para sinal da minha dor veemente,
 De torto prego ficará pendente,
 Despojo inútil do inconstante vento.

 Morre em paz, que, em havendo algum
 dinheiro,
 Hei-de mandar, em honra de teu nome,
 Abrir em negra pedra este letreiro:

 «Aqui piedoso entulho os ossos come
 Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
 Que fora eterno, a não morrer de fome».

 Nicolau Tolentino

Ó Cesar

             

 não sou uma mulher moderna
        não me ligo à net
 gosto de compras ao vivo
 cujas listas faço em cadernos de argolas
 que depois esqueço
 e só me lembro de elixir para aclarar a voz,
 tenho tantas embalagens
 como Warhol de Tomato Soup
 ou de detergente Brillo,
 para que ao chegares a casa
te envolva, te abrace e te queira
 mas nem só de voz vive o homem,
 dizes tu,
 e então a minha saúda-te
 como a daqueles que vão morrer.

 Ana Paula Inácio

Como se o vento

como se o vento trouxesse

            recados

 que pudesse abandonar

ao serviço do mensageiro
 como se o vento te pudesse levar

 e as palavras transformar

 no milagre da cerejeira
 não descuides o vento

 que quem uiva

 é lobo faminto
 rodeia-te antes do essencial

 faz-te cozinheira, semeia no teu quintal
 o que por natureza rola

 há-de rolar

 e tu sozinha

o que pode contra o vento?

Ana Paula Inácio

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Solemnia Verba

Solemnia Verba
 Disse ao meu coração: Olha por quantos
 Caminhos vãos andámos!
 Considera Agora, desta altura, fria e austera,
 Os ermos que regaram nossos prantos..

. Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
 E a noite, onde foi luz a Primavera!
 Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

 Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
 E no uso do pensar tornado crente,
 Respondeu: Desta altura vejo o Amor!

 Viver não foi em vão, se isto é vida,
 Nem foi demais o desengano e a dor.

Antero de Quental

queria que me acompanhasses

queria que me acompanhasses
 vida fora
 como uma vela
 que me descobrisse o mundo
 mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
 e só te posso ensinar
nomes de árvores
 cujo fruto se colhe numa próxima estação
 por onde os comboios estendem
 silvos aflitos

Ana Paula Inácio

A encomenda do silêncio



Já reparaste que tens o mundo inteiro
dentro da tua cabeça
e esse mundo em brutal compressão dentro da tua cabeça
é o teu mundo
e já reparaste que eu tenho o mundo inteiro
dentro da minha cabeça
e esse mundo em brutal compressão dentro da minha cabeça
é o meu mundo
o qual neste momento não te está a entrar pelos olhos
mas através dos nomes
pois o que tu tens dentro da tua cabeça
e o que eu tenho dentro da minha cabeça
são os nomes do mundo em brutal compressão
como um filtro ou coador
de forma que nem és tu que conheces o mundo
nem sou eu que conheço o mundo
mas os nomes que tu conheces é que conhecem o mundo
e os nomes que eu conheço é que conhecem o mundo
o qual entra em ti e o qual entra em mim
através dos nomes que já tem
de forma que o que entra pelos meus olhos não pode
entrar pelos teus olhos
mas só pela tua cabeça através
dos nomes dados pela minha cabeça
àquilo que entrou pelos meus olhos já com nomes
e do mesmo modo
o que entra pelos teus olhos não pode
entrar pelos meus olhos
mas só pela minha cabeça através
dos nomes dados pela tua cabeça
àquilo que entrou pelos teus olhos já com nomes
e assim o que tu vês
já está normalmente dentro de ti antes de tu o veres
e assim o que eu vejo
já está normalmente dentro de mim antes de eu o ver
e tudo quanto tu possas ver para aquém ou para além dos nomes
é indizível e fica dentro de ti
e tudo quanto eu possa ver para aquém ou para além dos nomes
é indizível e fica dentro de mim
e é assim que vamos construindo a nós mesmos pela segunda vez
tu a ti e eu a mim...
construindo urna consciência irrepetível e intransmissível
cada vez mais intensa e em si
tu em ti eu em mim
no entanto continuando a falar um com o outro
tu comigo e eu contigo
cada um
tentando dizer ao outro
como é o mundo inteiro que tem dentro da cabeça
e porque é e para que é
tu o teu mundo que tens dentro da tua cabeça
eu o meu mundo que tenho dentro da minha cabeça
até que morra um de nós
e depois o outro..

Alberto Pimenta