domingo, 21 de outubro de 2012

Junto à água

 Os homens temem as longas viagens,
 os ladrões da estrada, as hospedarias
 e temem morrer em frios leitos
 e ter sepultura em terra estranha.
 Por isso os seus passos os levam 
de regresso a casa, às veredas da infância, 
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

  Quantas vezes em
 desolados quartos de hotel 
esperei em vão que me batesses à porta, 
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!

 E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
 sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
 e no meio das multidões dos aeroportos.
 Agora só quero dormir um sono sem olhos

 e sem escuridão, sob um telhado por fim.
 À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
 e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

 Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
 Anoitece em todas as cidades do mundo, 
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
 onde o meu coração, falando, vagueia. 

 Manuel António Pina

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