segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A tarde despedaçou-se

A tarde despedaçou-se
e nunca houve outro anseio
senão esta claridade sem sol,
a lenta supressão de uma morada.
Espiamos as naves que se soletram
a ouvido nenhum,
tocando um do outro
os dedos mais
sinceros.
Estamos prontos para singrar
na noite do nosso
desassossego.

Vasco Gato in Napule, Tea for One, 2011

Noturno

Noturno

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!

Antero de Quental

Quero acabar entre rosas


  Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância.
  Os crisântemos de depois, desfolhei-os a frio.
  Falem pouco, devagar,
  Que eu não oiça, sobretudo com o pensamento.
  O que quis? Tenho as mãos vazias,
  Crispadas flebilmente sobre a colcha longínqua.
  O que pensei? Tenho a boca seca, abstracta.
  O que vivi? Era tão bom dormir!

Álvaro de Campos

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A minha alegria

A minha alegria é um aroma de tangerina nos dedos,
comer aos gomos a paisagem
e limpar depois
a boca
à manga do espanto.
Tu puxas-me
e somos duas crianças
          num trilho de mata,
                   num banco de pedra,
                              num portão verde dividindo


o aqui e o ali.
Porque nós estamos aqui.
Aqui onde te entrego os meus bolsos,
e - repara - as tuas mãos cabem.


Nós estamos aqui.

Vasco Gato

A noite cedeu-nos o instinto

A noite cedeu-nos o instinto
para o fundo de nós
imigrou a ave a inquietação
Serve-nos a vida
mas não nos chega:
somos resina
de um tronco golpeado
para a luz nos abrimos
nos lábios
dessa incurável ferida
Na suprema felicidade
existe uma morte silenciada

Mia Couto
(Moçambique- 1955)

Se recordo quem fui

Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é um presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.
26-5-1930

Fernando Pessoa
Demissão

Este mundo não presta,venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão:sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos se dependentes.

José Saramago

Tudo quanto sonhei

Tudo quanto sonhei tenho perdido
Antes de o ter.
Um verso ao menos fique do inobtido,
Música de perder.
Pobre criança a quem não deram nada,
Choras? E em vão.
Como tu choro à beira da erma estrada.
Perdi o coração.
A ti talvez, que não te tens dado,
Daria enfim...
A mim... Sei eu que duro e inato fado
Me espera a mim?

Fernando Pessoa
Poesias Inéditas (1919-1930)

Chama-se liberdade

Chama-se liberdade o bem que sentes,
 Águia que pairas sobre as serranias;
 Chamam-se tiranias
 Os acenos que o mundo
 Cá de baixo te faz;
 Não desças do teu céu de solidão,
 Pomba da verdadeira paz,
 Imagem de nenhuma servidão!

Miguel Torga
 In: Antologia Poética

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Recado

 
 
ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
 
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
 
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me
 
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
 
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço.

Al Berto

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A chave do campo

A chave do campo está na mão das mulheres
que o lavraram, desfazendo os nós do inverno
com a exactidão da pá. Vi estas mulheres no
grande caminho da História, perdendo as suas
vidas em cada nova colheita. O sol tisnou
a sua pele; o frio enrugou os seus rostos. À
noite, quando o vento batia nas janelas
de madeira, os seus olhos atravessavam
a treva e perdiam-se em destinos que
não conheciam, como se tivessem outra
saída. Ouvi as suas queixas no murmúrio
das árvores que as abrigaram; e vi os
seus corpos deitados nas igrejas, sem
ninguém que os velasse, a caminho da vala
comum. Amei-as, sem que o soubessem;
e ouço o ruído das pás na terra, quando os
seus rostos me atravessam a memória,
e o inverno cai sobre a lama dos campos.


Nuno Júdice

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Começo a conhecer-me

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

Álvaro de Campos
heterônimo de Fernando Pessoa

Ao longo da muralha

Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição
 
Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor

 
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita


Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

Mário Cesariny

Se queres sentir a felicidade de amar

Se queres sentir a felicidade de amar,
esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo
Porque os corpos se entendem,
mas as almas não.

Manuel Bandeira

Um Poema



Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...


Miguel Torga,
de 'Diário XIII'

Irmão, nada é eterno

Irmão,nada é eterno, nada sobrevive.
 Recorda isto, e alegra-te.

A nossa vida
 não é só a carga dos anos.
 A nossa vereda
 não é só o caminho interminável.
 Nenhum poeta tem o dever
 de cantar a antiga canção.
 A flor murcha e morre;
 mas aquele que a leva
 não deve chorá-la sempre...
 Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Chegará um silêncio absoluto,
 e, então, a música será perfeita.
 A vida inclinar-se-á ao poente
 para afogar-se em sombras doiradas.
 O amor há-de ser chamado do seu jogo
 para beber o sofrimento
 e subir ao céu das lágrimas ...
 Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Apanhemos, no ar, as nossas flores,
 não no-las arrebate o vento que passa.
 Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos
 roubando beijos que murchariam
 se os esquecêssemos.

É ânsia a nossa vida
 e força o nosso desejo,
 porque o tempo toca a finados.
 Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
 parti-las e atirá-las ao chão.
 Passam rápidas as horas,
 com os sonhos debaixo do manto.
 A vida, infindável para o trabalho
 e para o fastio,
 dá-nos apenas um dia para o amor.
 Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Sabe-nos bem a beleza
 porque a sua dança volúvel
 é o ritmo das nossas vidas.
 Gostamos da sabedoria
 porque não temos sempre de a acabar.
 No eterno tudo está feito e concluído,
 mas as flores da ilusão terrena
 são eternamente frescas,
 por causa da morte.
 Irmão, recorda isto, e alegra-te.


Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"

A ferida por baixo da cicatriz

A ferida por baixo da cicatriz
- quem cura?
Por vezes são estrelas que sobem
quando a água ocupa o espaço
e um brilho esquivo tropeça
no cansaço
do dia
No chão ainda morno
ardem pétalas sossegadamente
a há a melancolia de um pássaro

Na varanda esquecida
por trás de toda a magia da noite
(há tanta solidão em quem repara)
dura um homem que diz baixinho
assim quase para fora

A ferida por baixo da cicatriz
- quem cura?
vasco gato

O que me dói

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...
 
São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.
 
São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

Fernando Pessoa
5-9-1933

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revôlta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga

domingo, 4 de novembro de 2012

Tarde triste

 

É o Outono doente que começa.
Cada folha parece que tem pressa
De morrer.
Madura e fatigada, a natureza,
Roída por não sei que súbita incerteza,
Até nos frutos quer apodrecer.
E há um desalento igual dentro de mim.
Uma renúncia assim
Calada e conformada.
Perdi o gosto verde de cantar,
A emoção vem à tona e degenera,
Infecunda, a negar
As muitas flores que dei na Primavera.

Miguel Torga,
 Diário XIV, 1.984

Não abras a porta

Não abras a porta,
 se for o sublime diz que não estou,
jã temos palavras de mais,sentimentos de mais

A glicínia não floriu este ano,
 antes floria à volta de
tudo o que resta de azul à nossa volta,
Envelheceu, anima-a só o desejo
de voltar a casa, de ser uma casa.

 Manuel A.Pina