segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Irmão, nada é eterno

Irmão,nada é eterno, nada sobrevive.
 Recorda isto, e alegra-te.

A nossa vida
 não é só a carga dos anos.
 A nossa vereda
 não é só o caminho interminável.
 Nenhum poeta tem o dever
 de cantar a antiga canção.
 A flor murcha e morre;
 mas aquele que a leva
 não deve chorá-la sempre...
 Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Chegará um silêncio absoluto,
 e, então, a música será perfeita.
 A vida inclinar-se-á ao poente
 para afogar-se em sombras doiradas.
 O amor há-de ser chamado do seu jogo
 para beber o sofrimento
 e subir ao céu das lágrimas ...
 Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Apanhemos, no ar, as nossas flores,
 não no-las arrebate o vento que passa.
 Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos
 roubando beijos que murchariam
 se os esquecêssemos.

É ânsia a nossa vida
 e força o nosso desejo,
 porque o tempo toca a finados.
 Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
 parti-las e atirá-las ao chão.
 Passam rápidas as horas,
 com os sonhos debaixo do manto.
 A vida, infindável para o trabalho
 e para o fastio,
 dá-nos apenas um dia para o amor.
 Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Sabe-nos bem a beleza
 porque a sua dança volúvel
 é o ritmo das nossas vidas.
 Gostamos da sabedoria
 porque não temos sempre de a acabar.
 No eterno tudo está feito e concluído,
 mas as flores da ilusão terrena
 são eternamente frescas,
 por causa da morte.
 Irmão, recorda isto, e alegra-te.


Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"

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