quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

De tudo o que disse de mim

De tudo o que disse de mim que resta
Conservei falsos tesouros em armários vazios
Um navio inútil liga a minha infância ao meu fastio
Os meus jogos ao cansaço
A tempestade ao arco das noites em que estou só
Uma ilha sem animais aos animais que amo
Uma mulher abandonada à mulher sempre nova
Em veia de beleza
A única mulher real
Aqui e em qualquer parte
A oferecer sonhos aos ausentes
Sua mão estendida para mim
Reflecte-se na minha
Digo bom-dia sorrindo
Não se pensa na ignorância
E a ignorância reina
Sim eu tudo esperei
E desesperei de tudo
Da vida do amor do esquecimento do sono
Das forças das fraquezas
Já não me conhecem
Lobos são meu nome e minha sombra.

Paul Éluard, "Algumas Palavras (Antologia)", Publicações Dom Quixote, 1977

«Mónica minha querida

«Mónica, minha querida. Não sei se tu te entreténs aí na cova a divagar um pouco sobre o que aconteceu. Eu sim. É um modo de viver em duplicado, vivo a cópia mesmo já um pouco apagada do que foi. É um modo de o meu vazio estar cheio de outro vazio, mas menos, e com propriedades de enchimento.»

Vergílio Ferreira, "Em Nome da Terra", Bertrand Editora, 1990

«na hora de pôr a mesa,

«na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.»

José Luís Peixoto, "A Criança em Ruínas", Quetzal, 2012

«Dar prendas está a tornar-se

«Dar prendas está a tornar-se cada vez mais difícil. Onde há ainda lugar vago? Oh, esta dor de já não sabermos o que desejar! Foi tudo satisfeito. O que nos falta, dizemos, é a necessidade, como se quiséssemos fazer dela um desejo. E continuamos a dar presentes inexoravelmente. Já ninguém sabe quem, nem o quê, nem quando lhe caiu benevolamente em cima. Saciado e carente era o meu estado quando pus a mim mesmo a pergunta sobre o que queria no Natal e desejara que fosse uma ratazana.»


Günter Grass, "A Ratazana", Publicações Dom Quixote, 1999

Profissão



«Mal a morte se anuncia o instalador de luto, como exige a sua profissão, vem escurecer e tudo fica triste com nódoas e cinzas mágicas. Tudo fica com ar bichoso, piolhoso, de uma desolação infinita, ao ponto de parentes e amigos poderem apenas chorar o espectáculo depois de ele partir, invadidos por uma tristeza e um desespero sem nome.
Foi adoptada esta sensata medida e criada a profissão para o luto ser realmente irresistível e não terem os próximos de esforçar-se em parecer condoídos. Mas estão, estão-no ao máximo e ao ponto de se exortarem entre si os sem-coração: "Só há que passar dois dias, dizem eles; há que ter coragem, não é coisa que dure".
Com efeito, dois dias mais tarde chamam o assentador de luto e ele afasta por feitiço o horror e a desesperança que os seus deveres tinham levado a distribuir, e a família aliviada volta ao seu ar natural.»

Henri Michaux, "No País da Magia", Hiena Editora, 1987 

Milímetros


«Queres encontrar o homem mais feliz do mundo e estás no México, no Zócalo, praça central, a ver que a catedral se enterra aos poucos, milímetros, ano após anos é enterrada como um vivo que enquanto caminha se afunda. Poucos milímetros a cada ano somos nós aos poucos enterrados, só que não o notamos porque é no tempo, não no espaço.»

Gonçalo M. Tavares, "Canções Mexicanas", Relógio d'Água, 2012

«Olho a minha face

«Olho a minha face no espelho para saber quem sou, para saber como me portarei dentro de algumas horas, quando me defrontar com o fim. A minha carne pode ter medo; eu não. »

Jorge Luis Borge, "O Aleph", Editorial Estampa, 1988