quarta-feira, 19 de junho de 2013

SALMO



 Não foi por mim que deixaste que te pendurassem na cruz
 não foi por mim
 que te deixaste matar
 Não foi por mim
 que deixaste que te insultassem e cuspissem
 não foi por mim que morreste
 Ninguém se deixa matar assim
 para cumprir a vontade do pai
 - Pai Pai faça-te a tua vontade!
 - Ninguém se deixa matar assim
 porque um dia alguém se lembrou de oferecer uma maçã
... 
Não sei quantas maçãs já me ofereceste
 sem que um anjo com uma espada de fogo viesse para nos expulsar
 do nosso apartamento de três assoalhadas
Não foi por mim que tu morreste
 e ressuscitaste ao terceiro dia
 É uma herança demasiada pesada
 para se deixar a alguém
 que só viria a nascer dois mil anos depois
 e cujo único pecado foi nascer
 Não foi por mim nem por ti nem por ninguém
 que tu morreste
 e continuas a morrer todos os dias
 Há quem não saiba fazer outra coisa senão morrer
 e voltar a morrer
 Nem a vontade do Pai te serve de alibi
Não foi por mim que tu morreste
embora eu seja capaz de morrer por ti

 Jorge Sousa Braga

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Passagem da Noite

É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.

E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.


Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.


Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!

Carlos Drummond de Andrade