terça-feira, 26 de junho de 2012
Vida
Sempre a desencorajada alma do homem
resoluta indo à luta.
(Os contingentes anteriores falharam?
Pois mandaremos novos contingentes
e outros mais novos.)
Sempre o cerrado mistério
de todas as idades deste mundo
antigas ou recentes;
sempre os ávidos olhos, hurras, palmas
de boas-vindas, o ruidoso aplauso;
sempre a alma insatisfeita,
curiosa e por fim não convencida,
lutando hoje como sempre,
batalhando como sempre.
Walt Whitman, in "Leaves of Grass"
Nao gosto de contar os desastres em detalhe
Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje, por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.
Golgona Anghel
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Homenagem a
4 poetas e 1 cineasta
Livra-me das
tentações
de fugir ao fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo e
da vaidade e recorda-me que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair no pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E, por último, faz com que
todo o iogurte que coma seja
- foda-se! –
de morango.
de fugir ao fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo e
da vaidade e recorda-me que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair no pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E, por último, faz com que
todo o iogurte que coma seja
- foda-se! –
de morango.
Ana Paula Inácio
Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como
sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz,
aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a
fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas
submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem
vestígios.
Tornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto (2), nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino
Excertos do "livro desassossego" F.Pessoa
Para todos
nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma
que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar
escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los
também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem
também.
Pedi tão
pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um
campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer
que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto
mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas
para não ter que desabotoar o casaco
Amar-me é
ter pena de mim. Um dia, lá para o fim do futuro, alguém escreverá sobre mim um
poema, e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino.
Deus é o existirmos e isto não ser tudoTornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto (2), nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino
Hoje, como
me oprimisse a sensação do corpo aquela angústia antiga que por vezes extravasa,
não comi bem, nem bebi o costume, no restaurante, ou casa de pasto, em cuja
sobreloja baseio a continuação da minha existência. E como, ao sair eu, o
criado verificasse que a garrafa de vinho ficara em meio voltou-se para mim e
disse: "Até logo, sr. Soares, e desejo as melhoras."
Reconheço, não sei se com tristeza, a secura humana do meu coração. Vale
mais para mim um adjectivo que um pranto real da alma. O meu mestre Vieira
Mas às vezes sou diferente, e tenho lágrimas, lágrimas
das quentes dos que não têm nem tiveram mãe; e meus olhos que ardem dessas
lágrimas mortas ardem dentro do meu coração.
Não me
lembro da minha mãe. Ela morreu tinha eu um ano. Tudo o que há de disperso e
duro na minha sensibilidade vem da ausência desse calor e da saudade inútil dos
beijos de que me não lembro. Sou postiço. Acordei sempre contra seios outros,
acalentado por desvio.
Ah, é a
saudade do outro que eu poderia ter sido que me dispersa e sobressalta! Quem
outro seria eu se me tivessem dado carinho do que vem desde o ventre até aos
beijos na cara pequena?
Talvez que
a saudade de não ser filho tenha grande parte na minha indiferença sentimental.
Quem, em criança, me apertou contra a cara não me podia apertar contra o
coração. Essa estava longe, num jazigo – essa que me pertenceria, se o Destino
houvesse querido que me pertencesse.
Disseram-me, mais tarde, que minha mãe era bonita, e dizem que, quando
mo disseram, eu não disse nada. Era já apto de corpo e alma, desentendido de
emoções, e o falarem ainda não era uma notícia de outras páginas difíceis de
imaginar.
Meu pai,
que vivia longe, matou-se quando eu tinha três anos e nunca o conheci. Não sei
ainda por que é que vivia longe. Nunca me importei de o saber. Lembro-me da
notícia da sua morte como de uma grande seriedade às primeiras refeições depois
de se saber. Olhavam, lembro-me, de vez em quando para mim. E eu olhava de
troco, entendendo estupidamente. Depois comia com mais regra, pois talvez, sem
eu ver, continuassem a olhar-me.
Sou todas
essas coisas, embora o não queira, no fundo confuso da minha sensibilidade
fatal.
Somos todos
escravos de circunstâncias externas: um dia de sol abre-nos campos largos no
meio de um café de viela; uma sombra no campo encolhe-nos para dentro, e
abrigamo-nos mal na casa sem portas de nós mesmos; um chegar da noite, até
entre coisas do dia, alarga, como um leque [que] se abra lento, a consciência
íntima de dever-se repousar.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Passa, lento vapor, passa e não fiques...
Passa de mim, passa da minha vista,
Vai-te de dentro do meu coração,
Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus,
Perde-te, segue o teu destino e deixa-me...
Eu quem sou para que chore e interrogue?
Eu quem sou para que te fale e te ame?
Eu quem sou para que me perturbe ver-te?
Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro,
Luzem os telhados dos edifícios do cais,
Todo o lado de cá da cidade brilha...
Parte, deixa-me, torna-te
Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nítido,
Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto
Depois ponto vago no horizonte (ó minha angústia!),
Ponto cada vez mais vago no horizonte....
Nada depois, e só eu e a minha tristeza,
E a grande cidade agora cheia de sol
E a hora real e nua como um cais já sem navios,
E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira,
Traça um semicírculo de não sei que emoção
No silêncio comovido da minh'alma...
Álvaro de Campos
Passa de mim, passa da minha vista,
Vai-te de dentro do meu coração,
Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus,
Perde-te, segue o teu destino e deixa-me...
Eu quem sou para que chore e interrogue?
Eu quem sou para que te fale e te ame?
Eu quem sou para que me perturbe ver-te?
Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro,
Luzem os telhados dos edifícios do cais,
Todo o lado de cá da cidade brilha...
Parte, deixa-me, torna-te
Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nítido,
Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto
Depois ponto vago no horizonte (ó minha angústia!),
Ponto cada vez mais vago no horizonte....
Nada depois, e só eu e a minha tristeza,
E a grande cidade agora cheia de sol
E a hora real e nua como um cais já sem navios,
E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira,
Traça um semicírculo de não sei que emoção
No silêncio comovido da minh'alma...
Álvaro de Campos
quarta-feira, 20 de junho de 2012
O navio de espelhos
não navega cavalga
Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível
Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos
Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele
Os armadores não amam
a sua rota clara
(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)
Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga
O seu porão traz nada
nada leva à partida
Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta
(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)
Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto
A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto
Quando um se revolta
há dez mil insurrectos
(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)
E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo
Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)
Do princípio do mundo
até ao fim do mundo
MÁRIO Cesariny
sexta-feira, 1 de junho de 2012
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