Para todos
nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma
que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar
escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los
também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem
também.
Pedi tão
pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um
campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer
que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto
mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas
para não ter que desabotoar o casaco
Amar-me é
ter pena de mim. Um dia, lá para o fim do futuro, alguém escreverá sobre mim um
poema, e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino.
Deus é o existirmos e isto não ser tudoTornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto (2), nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino
Hoje, como
me oprimisse a sensação do corpo aquela angústia antiga que por vezes extravasa,
não comi bem, nem bebi o costume, no restaurante, ou casa de pasto, em cuja
sobreloja baseio a continuação da minha existência. E como, ao sair eu, o
criado verificasse que a garrafa de vinho ficara em meio voltou-se para mim e
disse: "Até logo, sr. Soares, e desejo as melhoras."
Reconheço, não sei se com tristeza, a secura humana do meu coração. Vale
mais para mim um adjectivo que um pranto real da alma. O meu mestre Vieira
Mas às vezes sou diferente, e tenho lágrimas, lágrimas
das quentes dos que não têm nem tiveram mãe; e meus olhos que ardem dessas
lágrimas mortas ardem dentro do meu coração.
Não me
lembro da minha mãe. Ela morreu tinha eu um ano. Tudo o que há de disperso e
duro na minha sensibilidade vem da ausência desse calor e da saudade inútil dos
beijos de que me não lembro. Sou postiço. Acordei sempre contra seios outros,
acalentado por desvio.
Ah, é a
saudade do outro que eu poderia ter sido que me dispersa e sobressalta! Quem
outro seria eu se me tivessem dado carinho do que vem desde o ventre até aos
beijos na cara pequena?
Talvez que
a saudade de não ser filho tenha grande parte na minha indiferença sentimental.
Quem, em criança, me apertou contra a cara não me podia apertar contra o
coração. Essa estava longe, num jazigo – essa que me pertenceria, se o Destino
houvesse querido que me pertencesse.
Disseram-me, mais tarde, que minha mãe era bonita, e dizem que, quando
mo disseram, eu não disse nada. Era já apto de corpo e alma, desentendido de
emoções, e o falarem ainda não era uma notícia de outras páginas difíceis de
imaginar.
Meu pai,
que vivia longe, matou-se quando eu tinha três anos e nunca o conheci. Não sei
ainda por que é que vivia longe. Nunca me importei de o saber. Lembro-me da
notícia da sua morte como de uma grande seriedade às primeiras refeições depois
de se saber. Olhavam, lembro-me, de vez em quando para mim. E eu olhava de
troco, entendendo estupidamente. Depois comia com mais regra, pois talvez, sem
eu ver, continuassem a olhar-me.
Sou todas
essas coisas, embora o não queira, no fundo confuso da minha sensibilidade
fatal.
Somos todos
escravos de circunstâncias externas: um dia de sol abre-nos campos largos no
meio de um café de viela; uma sombra no campo encolhe-nos para dentro, e
abrigamo-nos mal na casa sem portas de nós mesmos; um chegar da noite, até
entre coisas do dia, alarga, como um leque [que] se abra lento, a consciência
íntima de dever-se repousar.
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