quarta-feira, 29 de agosto de 2012


  

Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
 pensava eu… como seriam felizes as mulheres
 à beira-mar debruçadas para luz caiada
 remendando o pano das velas espiando o mar
 e a longitude do amor embarcado

 por vezes 
uma gaivota pousava nas águas 
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
 os dias lentíssimos… sem ninguém 

 e nunca me disseram o nome daquele oceano
 esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas
 punha-me a olhar a risca do mar ao fundo da rua
 assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
 se espantasse com a minha solidão

 (anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
 coração, mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

 um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
 inclino-me de novo para o pano deste século
 recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz 
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade

 Al Berto

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