quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Vai mísero cavalo lazarento

Vai, mísero cavalo lazarento,
 Pastar longas campinas livremente;
 Não percas tempo, enquanto to consente
 De magros cães faminto ajuntamento.

 Esta sela, teu único ornamento,
 Para sinal da minha dor veemente,
 De torto prego ficará pendente,
 Despojo inútil do inconstante vento.

 Morre em paz, que, em havendo algum
 dinheiro,
 Hei-de mandar, em honra de teu nome,
 Abrir em negra pedra este letreiro:

 «Aqui piedoso entulho os ossos come
 Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
 Que fora eterno, a não morrer de fome».

 Nicolau Tolentino

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