segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Os Pássaros de Londres




Os pássaros de Londres

cantam todo o inverno

como se o frio fosse

o maior aconchego

nos parques arrancados

ao trânsito automóvel

nas ruas da neve negra

sob um céu sempre duro

os pássaros de Londres

falam de esplendor

com que se ergue o estio

e a lua se derrama

por praças tão sem cor

que parecem de pano

em jardins germinando

sob mantos de gelo

como se gelo fora

o linho mais bordado

ou em casas como aquela

onde Rimbaud comeu

e dormiu e estendeu

a vida desesperada

estreita faixa amarela

espécie de paralela

entre o tudo e o nada

os pássaros de Londres



quando termina o dia

e o sol consegue um pouco

abraçar a cidade

à luz razante e forte

que dura dois minutos

nas árvores que surgem

subitamente imensas

no ouro verde e negro

que é sua densidade

ou nos muros sem fim

dos bairros deserdados

onde não sabes não

se vida rogo amor

algum dia erguerão

do pavimento cínzeo

algum claro limite

os pássaros de Londres

cumprem o seu dever

de cidadãos britânicos

que nunca nunca viram

os céus mediterrânicos



Mário Cesariny, in Poemas de Londres

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