terça-feira, 15 de janeiro de 2013

...desconheço o nome do pássaro

 ... desconheço o nome do pássaro que canta toda a noite…
    Lembro-me de quando pensava que a lua era de açúcar. Sentado
Nos degraus de cimento à entrada da casa, olho a roupa estendida
sobre a relva, os hibiscos vermelhos tremiam no incêndio do crepúsculo.
Ficava muito quieto, tempos em fim, à espera que a noite descesse e
Lentamente escorregasse pela superfície das coisas, e como ilusionista
Fizesse tudo desaparecer.
    Então erguia os olhos para o percurso vagaroso dos astros e sentia-me
Ficar adulto.
    Crescia dentro e fora de mim. Amanhã seria o último dia que jogaria ao berlinde.
    (… É tudo tão triste, a noite, o dia, as horas, estas horas da noite com os
olhos postos no mar, e nada acontece, nada…)

(…)

    Silêncios, silêncios de todos os géneros circulam no meu sangue.
Silêncios inexplicáveis, silêncios que vêm dalgum lado desconhecido
do meu corpo, do sul muito ao sul da memória. E as moscas voam
em volta do candeeiro, desesperadamente. O silêncio mais constrangedor
emana-se delas, do ruído surdo das asas cortando o ar.
    Ouço-me agora atentamente, as mãos cansadas sobre a mesa de trabalho.
    Não me ocorre qualquer palavra escrever. A noite acende-se pelas
paredes, abro a janela e um rumor de mar chega até mim.
    Os roncos dos petroleiros no porto, o zumbido laminar dum insecto. Apoio-me
ao parapeito e começo a esmigalhar as formigas que passam.
    Que horas serão no tremer inquieto do coração?
    Uma ave nocturna levantou voo, por entre as palmeiras, e noite tornou-se
mais escura. Incompreensível, distante desta janela.
    O silêncio abate-se também sobre o rosto. Sinto-o quente no lado de dentro da pele.
    Gostava de falar em voz alta comigo mesmo, mas tenho medo.

(…)

Al Berto
in, DIÁRIOS
Assírio & Alvim
2012

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