quinta-feira, 24 de abril de 2014

Lembrar-te-ás


...lembrar-te-ás de respeitar os mortos,[tosse] porque ninguém respeita os vivos sem saber de onde eles vieram, e todos nós viemos dos mortos, todos os nossos antepassados estão enterrados, foi de 
lá que nós viemos, não há vergonha nenhuma em perceber isso, pelo contrário, devemos sempre lembrar-nos disso. E é para junto deles que eu vou, que volto.Lembra-te, Naveeda, ninguém parte, tudo o que fazemos é regressar. 

afonso cruz (para onde vão os guarda chuvas)

As tragédias gostam da nossa intimidade,
de se sentar connosco a beber chá.

[...]
esse pedinte chamava-se Tal Azize e acreditava que os homens têm  duas almas:
-uma que está dentro do corpo e outra que está dentro do céu, como um pensamento está dentro do cérebro, como o verbo sentar está dentro das cadeiras.
Há muito tempo, gloria a Alá, essas almas viviam juntas, eram marido e mulher, antes de o tempo ter começado a existir, antes de o tempo ter começado a envelhecer-no, a apodrecer o pão, a abrir buracos na roupa, a fazer as cadeiras ranger, a arruinar as casas, a abandonar os velhos, a deixar ossos por todo o lado, a fazer iogurte do leite fresco.Antes disso, meu pequeno Isa, antes disso era tudo uma unidade, como esta mesa e a madeira de que é fabricada.

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