O MEDO (1)
(1982)
16 de maio
esqueço-me de tudo, por isso escrevo. longe do terror ao
sismo inesperado das estrelas, escrevo com a certeza de que tudo
o que escrevo se apagará do papel no momento da minha morte.
o olhar fugiu pelos interstícios dos objectos, sinto-me como
se tivesse cegado por excesso de olhar o mundo. as palavras para
nomear o que é belo definharam, raramente as escrevo, penso-as
só. aqui sentado, imobilizado sob a luz amarelenta do candeeiro,
continuo a desejar aquilo que nunca verei: a cintilação dum corpo
na cal, o sorriso dum rosto ardendo de suicídio em suicídio.
ignoro o mundo e a noite que o envolve e devora. deixo
escoar o cansaço do corpo pela janela do quarto. fecho os olhos,
finjo o sono, e vou pelos lugares desabitados do meu corpo.
(...)
Al Berto
in O Medo
Assírio e Alvim (4ª edição 2009)
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