segunda-feira, 29 de abril de 2013

Entrevista

Das coisas melhores que me aconteceram na vida foi ter nascido numa aldeia da Beira Baixa, e aí ter passado toda a minha infância. Como sou filho, neto e bisneto de camponeses, em casa havia apenas um só livro, uma Vida de Santos que ninguém lia, pois as poucas letras que alguns homens da família haviam aprendido tinham-nas esquecido quase todas. Meteram-me na escola aos seis anos de idade, aprendia facilmente, mas nunca li o tal alfarrábio, pois o meu mundo também não era o das letras, mas o dos pássaros e do vento, o das águas e dos amieiros. Essa era a "poesia" que me chegava, mas havia outra, ela vinha na voz de minha mãe, e nos seus intermináveis romances, cuja lembrança me aquece ainda. (...)

–        Quando começou então o seu interesse pela poesia escrita?
–        Um pouco mais tarde, já em Lisboa. Devia andar pelos meus doze anos quando me caiu nas mãos e, literalmente, devorei a biblioteca de um vizinho. Não era grande, mas bem escolhida: a par de Júlio Verne, Jack London e Alexandre Dumas, havia clássicos e românticos portugueses, os grandes romancistas russos, todo o Eça, todo o Junqueiro, algum Aquilino. E um poeta moderno, nesses anos muito célebre: António Botto. Comecei então a escrever poesia, se não é descaro dar tal nome ao que fazia. Como não tinha letrados na família e queria saber, como acontece a qualquer bicho-careta que faz versos, se eles tinham algum valor, escrevi uma carta ao António Botto e juntava-lhe três ou quatro poemas. Botto marcou-me um encontro numa livraria da Rua do Carmo. Eu era então - e ainda sou - muito tímido. Certamente falei pouco. António Botto estava com um amigo, a quem me apresentou. Admirou-se muito que eu fosse tão novo, depois tirou os meus poemas da carteira e leu-os mais para o amigo do que para mim. Quem conheceu António Botto sabe que ele lia admiravelmente. Os meus versos pareceram-me outros e as palavras que o poeta encontrou para me dizer tiraram-me o sono durante alguns dias. É preciso que se diga que eu teria então quinze anos e nunca havia revelado a ninguém que fazia versos, o que escondia como doença vergonhosa, ou coisa assim, igualmente triste.
  Um dia António Botto aconselhou-me a publicar uns versos sobre um tema que lhe era particularmente grato, o da beleza que se contempla e se compraz em si mesma. Foi uma alegria ver o meu nome impresso, mas passado pouco tempo tinha tanta vergonha de haver publicado versos tão ingénuos que passei a assinar com outro nome aquilo que ia escrevendo. Voltei a publicar, voltei a arrepender-me, e não seria essa a última vez. Frequentemente desejei não ter escrito um único verso, o anonimato total, o silêncio. Estive meses e até anos sem escrever uma só linha, com nojo da poesia, como se fora excreção imunda. É que, desde muito cedo, escrever foi para mim a ambição de exprimir uma certa consciência do mundo, consciência infeliz, naturalmente, mas responsável, e sempre o que fazia me parecia muito aquém da minha ambição.
          Ficámos amigos, passei a vê-lo frequentemente; a ele (e ao amigo que me apresentou no nosso primeiro encontro) sou-lhe devedor do conhecimento de Fernando Pessoa e dos poetas presencistas. Pessoa ia tomar conta de mim: passei tardes e tardes inteiras na Biblioteca Nacional a copiar em cadernos escolares os seus versos de revistas já então muito raras. Foi um tempo admirável.
in Rosto Precário, pp. 54-57

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TEXTO 2
 
Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira Baixa que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio do amor vigilante e sem fadiga de minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que a minha poesia é capaz. As minhas raízes mergulham desde a infância no mundo mais elementar. Guardo desse tempo o gosto por uma arquitectura extremamente clara e despida, que os meus poemas tanto se têm empenhado em reflectir; o amor pela brancura da cal, a que se mistura invariavelmente, no meu espírito, o canto duro das cigarras; uma preferência pela linguagem falada, quase reduzida às palavras nuas e limpas de um cerimonial arcaico - o da comunicação das necessidades primeiras do corpo e da alma. Dessa infância trouxe também o desprezo pelo luxo, que nas suas múltiplas formas é sempre uma degradação; a plenitude dos instantes em que o ser mergulha inteiro nas suas águas, talvez porque então o mundo não estivesse dividido, a luz cindia (dividida), o bem e o mal compartimentados; e, ainda, uma repugnância por todos os dualismos, tão do gosto da cultura ocidental, sobretudo por aqueles que conduzem à mineralização do desejo num coração de homem. A pureza, de que tanto se tem falado a propósito da minha poesia, é simplesmente paixão, paixão pelas coisas da terra, na sua forma mais ardente e ainda não consumada.
Eugénio de Andrade

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