quinta-feira, 11 de abril de 2013

Hélia Correia

1.

Para quê, perguntou ele, para que servem
 Os poetas em tempo de indigência?
 Dois séculos corridos sobre a hora
 Em que foi escrita esta meia linha,
 Não a hora do anjo, não: a hora
 Em que o luar, no monte emudecido,
 Fulgurou tão desesperadamente
 Que uma antiga substância, essa beleza
 Que podia tocar-se num recesso
 Da poeirenta estrada, no terror
 Das cadelas nocturnas, na contínua
 Perturbação, morada da alegria;

2.

Essa beleza que era também espanto
 Pelo dom da palavra e pelo seu uso
 Que erguia e abatia, levantava
 E abatia outra vez, deixando sempre
 Um rasto extraordinário. Sim, a hora,
 Dois séculos antes, em que uma ausência
 E o seu grande silêncio cintilaram
 Sobre a mão do poeta, em despedida.

7.

Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
 Nós, os que reduzimos a beleza
 A pequenas tarefas, nós, os pobres
 Adornados, os pobres confortáveis,
 Os que a si mesmos se vigarizavam
 Olhando para cima, para as torres,
 Supondo que as podiam habitar,
 Glória das águias que nem águias tem,
 Sofremos, sim, de idêntica indigência,
 Da ruína da Grécia.

23.

A terceira miséria é esta, a de hoje.
 A de quem já não ouve nem pergunta.
 A de quem não recorda. E, ao contrário
 Do orgulhoso Péricles, se torna
 Num entre os mais, num entre os que se entregam,
 Nos que vão misturar-se como um líquido
 Num líquido maior, perdida a forma,
 Desfeita em pó a estátua.

[in A Terceira Miséria, Relógio d'Água, 2012]

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