quinta-feira, 11 de abril de 2013

Hélia correia

32.

Estão as praças,
 Como ágoras de outrora, estonteadas
 Pela concentração dos organismos,
 Pelo uso da palavra, a fervilhante
 Palavra própria da democracia,
 Essa que dá a volta e ilumina
 O que, por um instante, a empunhou.
 Oh, os amigos, os abandonados,
 Esses, os destinados ao extermínio,
 Esses os belos despojados, nus,
 Os que, mesmo nascendo no Inverno,
 Pouco sabem do frio, gente que dorme
 Na sombra do meio-dia, ouvindo o canto
 Das cigarras, o canto sobre o qual
 Hesíodo escreveu. Gente do Sul,
 Gente que um dia se desnorteou.

33.

De que armas disporemos, senão destas
 Que estão dentro do corpo: o pensamento,
 A ideia de polis, resgatada
 De um grande abuso, uma noção de casa
 E de hospitalidade e de barulho
 Atrás do qual vem o poema, atrás
 Do qual virá a colecção dos feitos
 E defeitos humanos, um início.

Hélia Correia
Dois fragmentos finais(de a terceira miséria)

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